O mundo perdeu-me com a sua insensatez
por falta de mérito.
Ganhou-me a insanidade
pela sua capacidade de me prender
e de me encontrar.
Mais louca me vou tornar
menos regras vou ter
menos certezas
menos normal vou ser
mais acordada vou ficar
menos dormente
e com mais loucura lhe vou responder.
Só vou aceitar conselhos da morte
dela não tenho as menores suspeitas
sei que é certa, fiável, segura
sabe da vida
da minha vida
de todas as vidas
sabe das minhas lágrimas
deixa-se por elas regar
quando
vestida de sábia me diz:
-a tua vida pertence-me!
e eu encolho-me...
de medo?
feliz?
Não, só de pena de mim
que estropiada fico
quando me leva uma das minhas células.
Que ninguém se julgue tão poderoso
capaz de construir um plano alternativo
para se prevenir da morte
Um dia quando ela se chegou muito perto,
deitada na minha cama,
roubando-me afagos
confidenciou-me:
- dou-te mais tempo...
vai por aí, colhe flores,
canta o sol, o mar, os jardins,
escreve as noites nas fases de várias luas
desenha os dias de risos,
saúda as cervejas,
o vinho tinto sangue
esculpe os passos de dança,
o abraço quente
marca os beijos doces
saboreia os frutos secos
devora as palavras dos livros, as palavras dos poetas,
pinta as palavras tuas.
Oferece-te de presente
ao namoro que te vestir de musica
e ao te despir a essência
te descobrir deusa.
Ao se despedir sem me tocar,
(ela que me possui)
murmurou:
o teu corpo não me pertence
é a tua alma louca que virei reclamar.
Não me levou
e a sonhar com a vida me deixou.
Nos seus conselhos vou confiar
viverei em paz
embrulhando em lucidez a minha loucura
até tudo terminar.
Pego em mim, no que sou e viajo. Dentro de mim apanhando o comboio da minha imaginação, ou por esse mundo fora, que me convida a não ser, um ser quieto. Ou inspirando-me em Fernando Pessoa, "A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras"
domingo, 10 de maio de 2015
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Viagem com o meu avô
Manuel Simões Simões Ferreira, homem da minha vida.
Hoje dia 1 de Maio celebro-te. Com musica e escrita.
Ao vires ao mundo neste dia deste origem à minha felicidade maior. Para sempre seremos um.
Oh happy day! Um dia feliz para mim.
Uma celebração que gostámos sempre.Dia do trabalhador,dia de conquistas.
O teu dia.
Estamos ligados pelo amor, palavras,literatura e música.
Silêncios, cumplicidades e brincadeiras.
És o meu herói, o meu dom de amar, as minhas virtudes, o meu talismã, o meu fado, o meu destino, o meu equilíbrio, o meu tesouro. O meu conselheiro, a minha saudade maior. Minha ausência diariamente sentida.
Mas diariamente a tua companhia é por mim percebida.
Diariamente guardado, admirado e nunca nem por segundos esquecido.
Dizem que te apaixonaste por mim mal me viste. Tomaste-me para os teus braços e de lá não saí mais. Dos teus braços e da tua vida.
Deixaste de saber viver sem mim. Dedicaste-te a mim. Dizias que morrias se eu não estivesse presente. Até ao último suspiro fiquei.Na véspera de me deixares chamaste-me para te cantar um fado. Eu só queria rir. Eu a cantar o fado, bem... cá vai...cantei. Tu disseste que eu estava desafinada. Espero que não tenha sido o choque de me ouvires cantar que te fez ir embora demasiado cedo.
Desde que te percebi, apaixonei-me e a ti me dedico. Cada dia da minha vida. Ainda hoje a minha vida te dedico. Como retribuição. Durante muitos anos não soube o que era viver sem ti. Depois habituei-me. A tudo nos habituamos. Mas não esquecemos.
Somos perfeitos um com o outro como costumávamos dizer em cada longo passeio que fazíamos. E estes aconteciam diariamente. Eu corria à tua frente e voltava para te dar a mão. Tu dizias que eu andava duas vezes mais do que tu. Cada passo teu eram 5 meus. Ríamos das minhas tentativas de te acompanhar os passos. Qualquer acontecimento da minha vida simples, pequeno, ou importante, tu estás presente. Formaste-me o carácter. Ensinaste-me a ser independente, responsável, rebelde e livre. Um dia eu teria de cuidar de mim sozinha dizias-me. Antecipaste na perfeição.
Vivíamos no tempo do fascismo, eu sendo rapariga estava ainda mais desprotegida, os meus pais viviam longe. Tu eras velho, dizias.
Ensinaste-me a ser inconformada, consciente e curiosa, a procurar respostas por mim. Ensinaste-me a ler e sobretudo a amar as letras. A gostar de escrever. Protegeste-me, defendeste-me e deste-me reguadas. Eu fugia à volta da mesa redonda e tu corrias atrás sabendo que ia acabar em mais uma das nossas brincadeiras.Ouvias-me pacientemente cantar e repetir as canções do festival da eurovisão. Tanta paciência...
Sabias de tudo: química, física, matemática, astronomia, História, literatura...
Comias com uma travessa de porcelana chinesa que tinhas trazido de uma das tuas viagens( que guardo) e talheres de prata.
Ensinaste-me a sentar e a comer como uma senhora. Aprendi tudo. Queria aprender tudo o que viesse de ti. Queremos sempre absorver tudo o que vem dos nossos heróis.
Hoje se me visses...até como sentada numa tabanka em cima de uma capulana e com as mãos.
Éramos o rock e a amiga, sem eu saber quem eram esses personagens. Éramos uma dupla imbatível. Tu com 2 metros de altura, lindo e eu um "cotomisso" como dizias. A tua besnica como dizia a avó.
Quantas vezes enquanto escrevo os teus olhos claros vertem a transparência do teu amor sobre as minhas palavras e aí eu sei que elas deixam de ser as minhas poesias e são as nossas.
O mundo me explicas através delas. Como sempre fizeste. Sempre as palavras.
Todas te dedico.
Até breve meu amor.
No dia em que me fores receber,
é no teu abraço
dentro do teu peito
como num dia distante aconteceu,
que me quero perder.
https://www.youtube.com/watch?v=a37bBm8pXSk
Hoje dia 1 de Maio celebro-te. Com musica e escrita.
Ao vires ao mundo neste dia deste origem à minha felicidade maior. Para sempre seremos um.
Oh happy day! Um dia feliz para mim.
Uma celebração que gostámos sempre.Dia do trabalhador,dia de conquistas.
O teu dia.
Estamos ligados pelo amor, palavras,literatura e música.
Silêncios, cumplicidades e brincadeiras.
És o meu herói, o meu dom de amar, as minhas virtudes, o meu talismã, o meu fado, o meu destino, o meu equilíbrio, o meu tesouro. O meu conselheiro, a minha saudade maior. Minha ausência diariamente sentida.
Mas diariamente a tua companhia é por mim percebida.
Diariamente guardado, admirado e nunca nem por segundos esquecido.
Dizem que te apaixonaste por mim mal me viste. Tomaste-me para os teus braços e de lá não saí mais. Dos teus braços e da tua vida.
Deixaste de saber viver sem mim. Dedicaste-te a mim. Dizias que morrias se eu não estivesse presente. Até ao último suspiro fiquei.Na véspera de me deixares chamaste-me para te cantar um fado. Eu só queria rir. Eu a cantar o fado, bem... cá vai...cantei. Tu disseste que eu estava desafinada. Espero que não tenha sido o choque de me ouvires cantar que te fez ir embora demasiado cedo.
Desde que te percebi, apaixonei-me e a ti me dedico. Cada dia da minha vida. Ainda hoje a minha vida te dedico. Como retribuição. Durante muitos anos não soube o que era viver sem ti. Depois habituei-me. A tudo nos habituamos. Mas não esquecemos.
Somos perfeitos um com o outro como costumávamos dizer em cada longo passeio que fazíamos. E estes aconteciam diariamente. Eu corria à tua frente e voltava para te dar a mão. Tu dizias que eu andava duas vezes mais do que tu. Cada passo teu eram 5 meus. Ríamos das minhas tentativas de te acompanhar os passos. Qualquer acontecimento da minha vida simples, pequeno, ou importante, tu estás presente. Formaste-me o carácter. Ensinaste-me a ser independente, responsável, rebelde e livre. Um dia eu teria de cuidar de mim sozinha dizias-me. Antecipaste na perfeição.
Vivíamos no tempo do fascismo, eu sendo rapariga estava ainda mais desprotegida, os meus pais viviam longe. Tu eras velho, dizias.
Ensinaste-me a ser inconformada, consciente e curiosa, a procurar respostas por mim. Ensinaste-me a ler e sobretudo a amar as letras. A gostar de escrever. Protegeste-me, defendeste-me e deste-me reguadas. Eu fugia à volta da mesa redonda e tu corrias atrás sabendo que ia acabar em mais uma das nossas brincadeiras.Ouvias-me pacientemente cantar e repetir as canções do festival da eurovisão. Tanta paciência...
Sabias de tudo: química, física, matemática, astronomia, História, literatura...
Comias com uma travessa de porcelana chinesa que tinhas trazido de uma das tuas viagens( que guardo) e talheres de prata.
Ensinaste-me a sentar e a comer como uma senhora. Aprendi tudo. Queria aprender tudo o que viesse de ti. Queremos sempre absorver tudo o que vem dos nossos heróis.
Hoje se me visses...até como sentada numa tabanka em cima de uma capulana e com as mãos.
Éramos o rock e a amiga, sem eu saber quem eram esses personagens. Éramos uma dupla imbatível. Tu com 2 metros de altura, lindo e eu um "cotomisso" como dizias. A tua besnica como dizia a avó.
Quantas vezes enquanto escrevo os teus olhos claros vertem a transparência do teu amor sobre as minhas palavras e aí eu sei que elas deixam de ser as minhas poesias e são as nossas.
O mundo me explicas através delas. Como sempre fizeste. Sempre as palavras.
Todas te dedico.
Até breve meu amor.
No dia em que me fores receber,
é no teu abraço
dentro do teu peito
como num dia distante aconteceu,
que me quero perder.
https://www.youtube.com/watch?v=a37bBm8pXSk
quarta-feira, 8 de abril de 2015
rEflexões
Como no olhar de uma criança sem idade
que é feliz
é minha obrigação
ser feliz por ser quem sou
cortando as correntes que me prendem
às circunstâncias que não me deixam ser
feliz por ser eu
no
que é feliz
é minha obrigação
ser feliz por ser quem sou
cortando as correntes que me prendem
às circunstâncias que não me deixam ser
feliz por ser eu
no
“It feels so good to go someplace.
Except when you want to stay right there where you are.”- Exposição no MoMa
de Maira Kalman and Daniel Handler
de Maira Kalman and Daniel Handler
Morremos (literalmente) quando estamos a tentar ir ou ficar nalgum lugar?
Ou morremos (metaforicamente) se nem um nem outro experimentar?
Então porquê tentar sequer ir ou ficar?
Porque a vida me vai encontrar.
Esteja eu na viagem de barriga para o ar a boiar,
Ou morremos (metaforicamente) se nem um nem outro experimentar?
Então porquê tentar sequer ir ou ficar?
Porque a vida me vai encontrar.
Esteja eu na viagem de barriga para o ar a boiar,
ou de barriga para baixo a nadar.caminho por onde vou
domingo, 5 de abril de 2015
Guiné-Bissau com amor
O amor faz-me o que lhe faço
alimenta-me
eu a ele, ele a eu
sem ele não posso ser eu
porque ele é o que sou,
nem nada ver
nem de nada ter
tê-lo e ser seu
é assim um tanto de querer
Ele toma posse
terra,horizonte,mar
sob a forma de gente,
ilha,imagem, lar,
alimenta-me de um olhar
veste-me de um suspiro
é flecha é lança
é linha é pião
rodopia-me na sua mágica dança
despe-me de modéstia
recolhe-me a desesperança
bebe-me de inspiração,
ouve-me no silêncio a desejar
como se nunca me tivesse esquecido
manga verde, cajú, batuque
ostra, peixe seco, dendém
tabanka, ritmo de ancas, pilão.
Saudade estranha esta que me invade
em momentos de lúcidos sonhos
em noites de lua nua,
da terra desconhecida,
que do seu ventre me fez dádiva sua,
e numa oração,prece,reza divina
fazer um feitiço
para regressar ao amor
onde o
meu umbigo
enterrado ficou
sem sacrifício nem dor
como um dia fui para ela,
apenas prazer,
e no seu ventre de novo
de amor renascer
alimenta-me
eu a ele, ele a eu
sem ele não posso ser eu
porque ele é o que sou,
nem nada ver
nem de nada ter
tê-lo e ser seu
é assim um tanto de querer
Ele toma posse
terra,horizonte,mar
sob a forma de gente,
ilha,imagem, lar,
alimenta-me de um olhar
veste-me de um suspiro
é flecha é lança
é linha é pião
rodopia-me na sua mágica dança
despe-me de modéstia
recolhe-me a desesperança
bebe-me de inspiração,
ouve-me no silêncio a desejar
como se nunca me tivesse esquecido
manga verde, cajú, batuque
ostra, peixe seco, dendém
tabanka, ritmo de ancas, pilão.
Saudade estranha esta que me invade
em momentos de lúcidos sonhos
em noites de lua nua,
da terra desconhecida,
que do seu ventre me fez dádiva sua,
e numa oração,prece,reza divina
fazer um feitiço
para regressar ao amor
onde o
meu umbigo
enterrado ficou
sem sacrifício nem dor
como um dia fui para ela,
apenas prazer,
e no seu ventre de novo
de amor renascer
sexta-feira, 27 de março de 2015
Em mim cabem todas as cores - Exposição Djumbai
Um dia eu tinha de escrever sobre mim, sobre a discriminação, sobre o "bullying". Sobre quem sofre este preconceito. Pela cor.Preta. Ou a ausência dela. Ou a única cor. Por uma cor. Por uma cor? Diferente?
Foi com este quadro que irá estar na exposição do Sidney que apareceu a inspiração.
Chama-se Natan.
Em mim cabem todas as cores
Tens de ser branca
fazer como os brancos
e de tanto conviveres com eles
ficas branca...
Um pouco de pó de talco e mudo de cor...
"Preta da Guiné, lava a cara com xulé"
"preta retinta",
bata rasgada, botões arrancados
de tanto soco dar,
de tanto puxão suster
de tanta lágrima calar
de tanto soluço abafar
por tanto insulto receber
Preta, mulata
o mesmo peito, o mesmo coração
branca
as mesmas pernas, as mesmas mãos
Então...
porque razão?
Procurando consolo fica a menina criança, o menino homem
sem tamanho,
grande como um humano,
Não, não me zanguem mais
não, não me magoem mais
é esta a pele que tenho
é esta a pele que não me deixa
é esta a pele que não gosto.
É nesta pele que sou...desconfortável
para mim
para os outros que me magoam, que me zangam.
Quero voltar a mim,
agarro no dedo com força entre os lábios grossos
de preta
nos lábios grossos mulatos de preto,
nos cabelos
de fios escarpados como montanhas brancas
lisos como Himalaias negros,
frondosos como selvas
de planuras feitos, como savanas,
conforto-me com ele na boca,
sinto o sangue que sai do coração a passar
pára no céu da boca e traz-me a mensagem:
-Este sangue que trazes,
é o sangue dos teus avós, pais e ancestrais
pretos e brancos
sementes de todos os continentes, rios, lagos, montanhas e oceanos,
fizeram de ti preta
e mulata
Igual.
Lembra-te
És a tua pele e és a tua alma.
Aceita como se aceitasses chocolate
branco ou preto
e todos gostam de chocolate não é?
e de doces de várias matizes
como uma palete de
Van Gogh ou Rembrandt
ou Malangatana
Como uma musica blues e jazz
samba ou morna
ou rock em roll
cabem todas as cores.
Cada uma com a sua dor
Preta pele, alma sem cor
Não a podes mudar.
Essa é quem és: preta! preto!
Esse é quem és:mulato! mulata!
Na tua alma não cabem distinções
nem fronteiras,
nem descriminações
Não a podes mudar.
Muda sim o orgulho
pela sua criação.
Que artista, que poeta
o criador
que te inventou assim
com tamanha imaginação!
Estão todos convidados para a exposição
domingo, 22 de março de 2015
Travessias
O dia estava quente e o passeio decorria sereno pelas paisagens deslumbrantes da África do Sul, perto da Cidade do Cabo. De repente um desafio. Para ir conhecer uma floresta absolutamente magnífica pela quantidade, densidade e beleza da sua flora, tinha de atravessar uma ponte. Como a da imagem. Feita de cordas e traves de madeira. Oscilava ao vento ligeiro que se fazia sentir. A distância era de cerca de 1 km. A uma altura de um prédio de vinte andares o mar entrava e corria alegre, vestido de ondulação escura.
Recuei: Não consigo. Não vou! Não quero saber do que vou ver do outro lado. Fui incitada.Vamos! É fácil...
Gente deslocava-se nos dois sentidos admirando suspensos a maravilha da travessia. Lia-lhes nos rostos como se divertiam, como era fácil e excitante.
Eu paralisada com o terror que me invadia, deixava-me estar ali, com os pés fincados na terra a olhar o mar que rugia lá muito ao fundo.
-Não, não vás, dizia-me a mente: -podes cair e morrer.Se cais sofrerás muito. Deixa-te ficar em segurança.Os loucos que façam a travessia, mas tu não! Não és louca. Danças comigo aqui dizia-me a segurança. Não dances lá, no ar maravilhado que aquelas pessoas trazem. Elas...tiveram sorte. Podes não ter...Fica. Nem todos têm de seguir o caminho da coragem, da loucura, do risco. De cada vez que o vento abanar, vais abanar com a ponte e corres riscos maiores: de perder o equilíbrio, uma tontura, uma vertigem e cais...Não confies na ponte, ela vai-se partir e...
-hei...anda, o que te define perante ti própria é a fé cega. Em ti própria. Vais sentir um momento de tremenda felicidade neste caminho onde vais de de olhos vendados. Experimenta ser verdadeiramente ousada, arrojada, exactamente para exprimires o que te é mais difícil. De que te serve o medo? Só te serve para abdicares da tua melhor expressão, que é isto que estás a praticar nesta viagem que é a vida. Tens de conhecer o quanto és capaz nas travessias difíceis.
Morrer? pois bem, se acontecer hoje ou amanhã terá de ser, que seja então a ir para um lugar onde buscas conhecer o melhor de ti próprio.
Era a voz de alguém que habitava dentro de mim, que me conhecia e confiava. Acreditava que eu seria suficientemente inteligente para, mesmo hesitando, fazer a viagem. Sem nada pensar e apenas sentir.
Avancei. Alguns momentos andei de olhos fechados. O medo impedia-me de os abrir. Agarrei as cordas porque disso dependia a minha vida. Abanava e parava para sorver oxigénio confirmando a minha condição mortal.
Fui. E fiz o caminho de regresso.
O que vi, guardei numa palete de memórias que me faz hoje colorir com poesia e felicidade quase todos os momentos da vida.
Naquelas cordas, naquelas traves de madeira deixei uma parte da minha pele.
Aquela travessia foi uma das metáforas da vida que sou, transformada em viagens, vividas intensamente.
Naquele momento de decisão e ao longo da minha desesperada travessia, fiz a viagem dentro de mim.
O medo perdeu o poder que tinha e que me poderia consumir. Quando se envolve comigo, faz-se interagir com a mesma voz que me diz:
-qual é a melhor expressão de quem és? Medo?
E vou dançando, atravessando pontes inseguras de cordas e tábuas de madeira. Com a felicidade dentro da minha pele.
Na viagem com as palavras, todos os dias, perco mais um pedaço de pele, a que guarda medos, e sigo cumprimentando-o com um aceno. Dou mais uns passos na frágil e assustadora ponte.
Porque tenho de dar voz a essa fé cega na voz que me guia a coreografia.
Que ninguém me julgue se não entender a minha dança, a minha pele. Significa que não está a ouvir a mesma música.
Para encontrar a sua, terá de fazer a sua travessia, na sua ponte de cordas e pedaços de madeira a abanar com o vento e, tendo o mar escuro para o receber.
A travessia faz-se usando uma fé cega. Muita fé. Apenas no poder que temos em ouvir-nos a nós próprios.
Recuei: Não consigo. Não vou! Não quero saber do que vou ver do outro lado. Fui incitada.Vamos! É fácil...
Gente deslocava-se nos dois sentidos admirando suspensos a maravilha da travessia. Lia-lhes nos rostos como se divertiam, como era fácil e excitante.
Eu paralisada com o terror que me invadia, deixava-me estar ali, com os pés fincados na terra a olhar o mar que rugia lá muito ao fundo.
-Não, não vás, dizia-me a mente: -podes cair e morrer.Se cais sofrerás muito. Deixa-te ficar em segurança.Os loucos que façam a travessia, mas tu não! Não és louca. Danças comigo aqui dizia-me a segurança. Não dances lá, no ar maravilhado que aquelas pessoas trazem. Elas...tiveram sorte. Podes não ter...Fica. Nem todos têm de seguir o caminho da coragem, da loucura, do risco. De cada vez que o vento abanar, vais abanar com a ponte e corres riscos maiores: de perder o equilíbrio, uma tontura, uma vertigem e cais...Não confies na ponte, ela vai-se partir e...
-hei...anda, o que te define perante ti própria é a fé cega. Em ti própria. Vais sentir um momento de tremenda felicidade neste caminho onde vais de de olhos vendados. Experimenta ser verdadeiramente ousada, arrojada, exactamente para exprimires o que te é mais difícil. De que te serve o medo? Só te serve para abdicares da tua melhor expressão, que é isto que estás a praticar nesta viagem que é a vida. Tens de conhecer o quanto és capaz nas travessias difíceis.
Morrer? pois bem, se acontecer hoje ou amanhã terá de ser, que seja então a ir para um lugar onde buscas conhecer o melhor de ti próprio.
Era a voz de alguém que habitava dentro de mim, que me conhecia e confiava. Acreditava que eu seria suficientemente inteligente para, mesmo hesitando, fazer a viagem. Sem nada pensar e apenas sentir.
Avancei. Alguns momentos andei de olhos fechados. O medo impedia-me de os abrir. Agarrei as cordas porque disso dependia a minha vida. Abanava e parava para sorver oxigénio confirmando a minha condição mortal.
Fui. E fiz o caminho de regresso.
O que vi, guardei numa palete de memórias que me faz hoje colorir com poesia e felicidade quase todos os momentos da vida.
Naquelas cordas, naquelas traves de madeira deixei uma parte da minha pele.
Aquela travessia foi uma das metáforas da vida que sou, transformada em viagens, vividas intensamente.
Naquele momento de decisão e ao longo da minha desesperada travessia, fiz a viagem dentro de mim.
O medo perdeu o poder que tinha e que me poderia consumir. Quando se envolve comigo, faz-se interagir com a mesma voz que me diz:
-qual é a melhor expressão de quem és? Medo?
E vou dançando, atravessando pontes inseguras de cordas e tábuas de madeira. Com a felicidade dentro da minha pele.
Na viagem com as palavras, todos os dias, perco mais um pedaço de pele, a que guarda medos, e sigo cumprimentando-o com um aceno. Dou mais uns passos na frágil e assustadora ponte.
Porque tenho de dar voz a essa fé cega na voz que me guia a coreografia.
Que ninguém me julgue se não entender a minha dança, a minha pele. Significa que não está a ouvir a mesma música.
Para encontrar a sua, terá de fazer a sua travessia, na sua ponte de cordas e pedaços de madeira a abanar com o vento e, tendo o mar escuro para o receber.
A travessia faz-se usando uma fé cega. Muita fé. Apenas no poder que temos em ouvir-nos a nós próprios.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Pacto entre mistério e surpresa
Pacto entre
mistério e surpresa:
-Este é o
manuscrito, por ambos assinado num canto à imperfeição
Num silêncio
a alma transmitiu-me as suas palavras.
Para não me
perder na sua tradução,
escrevi-as
num sopetão:
-És o
mistério da vida. Ela a tua surpresa.
No intervalo
que o tempo me dá entre a
consciência
de mistério viver
e a surpresa
de acabar.
A vida é tão
estranha quanto bela.
Do que mais
gosto dela? (Olha-me de lado…)
Das suas
surpresas.
Um exemplo?
De repente, sem aviso prévio, termina.
É um
mistério!
Por ser assim
torna tudo mais frenético, mais insano, mais autêntico.
Para que me
tenha sempre empenhada.
Mais outro
exemplo?
Num passe
mágico surpreende-me com flores
nas suas
várias manifestações:
-uma história
de amor, um novo amigo, uma viagem, uma nova casa, um novo projecto, um novo
estudo, um filho, um neto, um talento desconhecido, um quadro, uma imagem, uma
praia, um livro
Se sempre
assim for torna-me descuidada, relaxada,
esperando
matreira a garantia de receber
que assim me
deixe ficar
enquanto o
corpo me pertencer,
sem que eu
pense nas suas surpresas
não apenas de
prazer.
Porque faço?
Que faço?
Que devo
fazer?
perfeita devo
ser?
ou procuro
alguém perfeito?
consegui-la-ei
perfeita?
Para esta
mina
que me disse
chamar-se vida
trouxe um
manuscrito e nele assento o que encontro:
pedras, pó,
escolhos e diamantes.
Em bruto.
Vou
descobrindo,
escavando,
esculpindo
lapidando
agora
largando o pincel, a tinta e o aparo
digo-lhe
suavemente:
-não, não
quero ser perfeita como o vento e as marés
a lua e o sol
enquanto se dançam,
Não, não
quero ninguém perfeito
cansado de se
mostrar perfeito a meus pés
Para não mais
ser surpreendida,
pela visita
entristecida da perfeição
e me manter o
mistério da vida
sento-me a
observá-la
contemplando-a
respirando.
Às vezes
surpreendo-a
Misteriosamente…
viro-a do
avesso,
descalçando-a,
desarrumando-a
despindo-a,
fazendo-a desaprender
até encarar
uma nova e perfeita surpresa
que a venha
engrandecer.
Ser perfeito
esgota-me a
alegria do olhar,
envelhece-me
os dedos da alma
que me
murmura a sua tristeza,
enruga-me a
pele do coração
levar-me-ia à
loucura
consome-me o
tempo que me resta,
faz parar os
impulsos das surpresas por descobrir
entardece o
encantamento do meu esculpir
No intervalo
que me concede,
estendo-lhe
uma toalha de quadrados,
aconchego-me
na sua maciez
afago-lhe a
planura
do ventre
prateado
dispenso o
copo que partilhamos
bebo-lhe o
vinho,
da boca pura,
enrosco a
minha língua
na sua língua
estreita
saboreio-lhe
a textura
sorrindo
sopro-lhe ao
ouvido:
sou o teu
mistério,
feito das
tuas surpresas
e não, não
quero ser perfeita
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