O dia estava quente e o passeio decorria sereno pelas paisagens deslumbrantes da África do Sul, perto da Cidade do Cabo. De repente um desafio. Para ir conhecer uma floresta absolutamente magnífica pela quantidade, densidade e beleza da sua flora, tinha de atravessar uma ponte. Como a da imagem. Feita de cordas e traves de madeira. Oscilava ao vento ligeiro que se fazia sentir. A distância era de cerca de 1 km. A uma altura de um prédio de vinte andares o mar entrava e corria alegre, vestido de ondulação escura.
Recuei: Não consigo. Não vou! Não quero saber do que vou ver do outro lado. Fui incitada.Vamos! É fácil...
Gente deslocava-se nos dois sentidos admirando suspensos a maravilha da travessia. Lia-lhes nos rostos como se divertiam, como era fácil e excitante.
Eu paralisada com o terror que me invadia, deixava-me estar ali, com os pés fincados na terra a olhar o mar que rugia lá muito ao fundo.
-Não, não vás, dizia-me a mente: -podes cair e morrer.Se cais sofrerás muito. Deixa-te ficar em segurança.Os loucos que façam a travessia, mas tu não! Não és louca. Danças comigo aqui dizia-me a segurança. Não dances lá, no ar maravilhado que aquelas pessoas trazem. Elas...tiveram sorte. Podes não ter...Fica. Nem todos têm de seguir o caminho da coragem, da loucura, do risco. De cada vez que o vento abanar, vais abanar com a ponte e corres riscos maiores: de perder o equilíbrio, uma tontura, uma vertigem e cais...Não confies na ponte, ela vai-se partir e...
-hei...anda, o que te define perante ti própria é a fé cega. Em ti própria. Vais sentir um momento de tremenda felicidade neste caminho onde vais de de olhos vendados. Experimenta ser verdadeiramente ousada, arrojada, exactamente para exprimires o que te é mais difícil. De que te serve o medo? Só te serve para abdicares da tua melhor expressão, que é isto que estás a praticar nesta viagem que é a vida. Tens de conhecer o quanto és capaz nas travessias difíceis.
Morrer? pois bem, se acontecer hoje ou amanhã terá de ser, que seja então a ir para um lugar onde buscas conhecer o melhor de ti próprio.
Era a voz de alguém que habitava dentro de mim, que me conhecia e confiava. Acreditava que eu seria suficientemente inteligente para, mesmo hesitando, fazer a viagem. Sem nada pensar e apenas sentir.
Avancei. Alguns momentos andei de olhos fechados. O medo impedia-me de os abrir. Agarrei as cordas porque disso dependia a minha vida. Abanava e parava para sorver oxigénio confirmando a minha condição mortal.
Fui. E fiz o caminho de regresso.
O que vi, guardei numa palete de memórias que me faz hoje colorir com poesia e felicidade quase todos os momentos da vida.
Naquelas cordas, naquelas traves de madeira deixei uma parte da minha pele.
Aquela travessia foi uma das metáforas da vida que sou, transformada em viagens, vividas intensamente.
Naquele momento de decisão e ao longo da minha desesperada travessia, fiz a viagem dentro de mim.
O medo perdeu o poder que tinha e que me poderia consumir. Quando se envolve comigo, faz-se interagir com a mesma voz que me diz:
-qual é a melhor expressão de quem és? Medo?
E vou dançando, atravessando pontes inseguras de cordas e tábuas de madeira. Com a felicidade dentro da minha pele.
Na viagem com as palavras, todos os dias, perco mais um pedaço de pele, a que guarda medos, e sigo cumprimentando-o com um aceno. Dou mais uns passos na frágil e assustadora ponte.
Porque tenho de dar voz a essa fé cega na voz que me guia a coreografia.
Que ninguém me julgue se não entender a minha dança, a minha pele. Significa que não está a ouvir a mesma música.
Para encontrar a sua, terá de fazer a sua travessia, na sua ponte de cordas e pedaços de madeira a abanar com o vento e, tendo o mar escuro para o receber.
A travessia faz-se usando uma fé cega. Muita fé. Apenas no poder que temos em ouvir-nos a nós próprios.
Pego em mim, no que sou e viajo. Dentro de mim apanhando o comboio da minha imaginação, ou por esse mundo fora, que me convida a não ser, um ser quieto. Ou inspirando-me em Fernando Pessoa, "A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras"
domingo, 22 de março de 2015
segunda-feira, 9 de março de 2015
Pacto entre mistério e surpresa
Pacto entre
mistério e surpresa:
-Este é o
manuscrito, por ambos assinado num canto à imperfeição
Num silêncio
a alma transmitiu-me as suas palavras.
Para não me
perder na sua tradução,
escrevi-as
num sopetão:
-És o
mistério da vida. Ela a tua surpresa.
No intervalo
que o tempo me dá entre a
consciência
de mistério viver
e a surpresa
de acabar.
A vida é tão
estranha quanto bela.
Do que mais
gosto dela? (Olha-me de lado…)
Das suas
surpresas.
Um exemplo?
De repente, sem aviso prévio, termina.
É um
mistério!
Por ser assim
torna tudo mais frenético, mais insano, mais autêntico.
Para que me
tenha sempre empenhada.
Mais outro
exemplo?
Num passe
mágico surpreende-me com flores
nas suas
várias manifestações:
-uma história
de amor, um novo amigo, uma viagem, uma nova casa, um novo projecto, um novo
estudo, um filho, um neto, um talento desconhecido, um quadro, uma imagem, uma
praia, um livro
Se sempre
assim for torna-me descuidada, relaxada,
esperando
matreira a garantia de receber
que assim me
deixe ficar
enquanto o
corpo me pertencer,
sem que eu
pense nas suas surpresas
não apenas de
prazer.
Porque faço?
Que faço?
Que devo
fazer?
perfeita devo
ser?
ou procuro
alguém perfeito?
consegui-la-ei
perfeita?
Para esta
mina
que me disse
chamar-se vida
trouxe um
manuscrito e nele assento o que encontro:
pedras, pó,
escolhos e diamantes.
Em bruto.
Vou
descobrindo,
escavando,
esculpindo
lapidando
agora
largando o pincel, a tinta e o aparo
digo-lhe
suavemente:
-não, não
quero ser perfeita como o vento e as marés
a lua e o sol
enquanto se dançam,
Não, não
quero ninguém perfeito
cansado de se
mostrar perfeito a meus pés
Para não mais
ser surpreendida,
pela visita
entristecida da perfeição
e me manter o
mistério da vida
sento-me a
observá-la
contemplando-a
respirando.
Às vezes
surpreendo-a
Misteriosamente…
viro-a do
avesso,
descalçando-a,
desarrumando-a
despindo-a,
fazendo-a desaprender
até encarar
uma nova e perfeita surpresa
que a venha
engrandecer.
Ser perfeito
esgota-me a
alegria do olhar,
envelhece-me
os dedos da alma
que me
murmura a sua tristeza,
enruga-me a
pele do coração
levar-me-ia à
loucura
consome-me o
tempo que me resta,
faz parar os
impulsos das surpresas por descobrir
entardece o
encantamento do meu esculpir
No intervalo
que me concede,
estendo-lhe
uma toalha de quadrados,
aconchego-me
na sua maciez
afago-lhe a
planura
do ventre
prateado
dispenso o
copo que partilhamos
bebo-lhe o
vinho,
da boca pura,
enrosco a
minha língua
na sua língua
estreita
saboreio-lhe
a textura
sorrindo
sopro-lhe ao
ouvido:
sou o teu
mistério,
feito das
tuas surpresas
e não, não
quero ser perfeita
domingo, 8 de março de 2015
Devorem livros
O que vos interessa o que penso? Nada. Vim aqui falar de um livro. Leiam-me agora está bem?
Ou antes: Leiam! Devorem livros.
Esta é a metáfora que vos recomendo.
Ontem devorei um livro: "As mulheres do meu pai" de José Eduardo Agualusa. Devoradinho de ponta a ponta tal foi a fome instalada desde as primeiras páginas. E fez-me imaginar, vi o livro no filme que passou na minha cabeça, nos voos que fiz, nas lembranças e nos sonhos para onde me levou, às viagens que ontem me conduziu.
O assunto mulheres é tratado com uma rara beleza. De um homem que ama as mulheres. Não é mais um conto. É um conto formidável.Que se come devorando.
Inspirou-me a escrever mais um pequeno texto sobre a mulheres e a desejar de novo vir um dia, já crescida, a saber contar histórias assim.
Leiam este livro. Homens e mulheres
Ou antes devorem livros.
Uma arma de construção maciça. A bala que se alojar, a planta que semear não cederá a nenhuma intempérie.
Ou antes: Leiam! Devorem livros.
Esta é a metáfora que vos recomendo.
Ontem devorei um livro: "As mulheres do meu pai" de José Eduardo Agualusa. Devoradinho de ponta a ponta tal foi a fome instalada desde as primeiras páginas. E fez-me imaginar, vi o livro no filme que passou na minha cabeça, nos voos que fiz, nas lembranças e nos sonhos para onde me levou, às viagens que ontem me conduziu.
O assunto mulheres é tratado com uma rara beleza. De um homem que ama as mulheres. Não é mais um conto. É um conto formidável.Que se come devorando.
Inspirou-me a escrever mais um pequeno texto sobre a mulheres e a desejar de novo vir um dia, já crescida, a saber contar histórias assim.
Leiam este livro. Homens e mulheres
Ou antes devorem livros.
Uma arma de construção maciça. A bala que se alojar, a planta que semear não cederá a nenhuma intempérie.
sexta-feira, 6 de março de 2015
Viver com cheiro de perfume da alma
Quero viver com o cheiro de perfume da alma
Ajo como se cada acto fosse o meu último.
e cada acto exige conflito ou pensamento
determinado por uma causa que terá o seu efeito.
Por isso penso cada acto e enfrento o conflito
como se fossem o meu último
vinda da sombra
se a morte enfrentar quando a mão estender,
para o meu lado direito, ou esquerdo
que no meu mundo à parte
mesmo que não seja entendido
o meu acto ou pensamento
conscientes
decididos no anonimato da minha solidão
confrontado publicamente,
como se fosse o último
reflicta a expressão do melhor que sou
da minha loucura
e a essa já não lhe sobra tempo para mais nada
que buscar apenas o reflexo que da alma vem
deixando-a voar
libertando por entre os fios de cabelo
o seu perfume
quinta-feira, 5 de março de 2015
Amigos
Com histórias de dor e cor
no passado e no presente
estes são feitos os ossos e a pele
dos muitos amigos
que compõe a minha tribu.
Inteiros,
Inteiros,
possuem a riqueza das pessoas fortes:
Passaram por
histórias que os tornaram
vulneráveis,
frágeis, por vezes tristes e com medo,
lutadoras, solidárias, afectuosas e sempre
grandiosas
que caem e se erguem
que se procuram quando se perdem
mesmo quando nos tempos mais
oprimidos
(como os que hoje atravessamos)
a viver como
marionetas num teatro
com fundo falso,
de máscaras
pintadas que vestem a pintura original
os seus trapos e retalhos
transformam em vestes de coragem belas
e únicas
Acredito que a humanidade é feita
maioritariamente de gente como os meus amigos, por isso acredito e tenho
esperança. Quando falo/escrevo com um deles vejo sempre a luz que carregam e
como a sua entrega é uma luz que me inspira. Obrigada
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Retrato de uma viajante
De casa aberta,
“Sentada numa doca a descansar os
ossos, a ver o tempo passar”, deixando-me levar pela cor do mar, com os
pensamentos a voar…Não nunca mais serei a mesma e no entanto sou quem sempre
fui. Levo-me com as minhas origens, a minha história, a minha diversidade, quem
sou no final de todas as contas com os meus vários mundos para todos as casas onde
viajo, chego, fico, abraço, me sento à mesa, passeio pelas suas ruas e me
enlaço nessas gentes. De todos os mundos, com as suas histórias, a sua
diversidade, a sua cultura, no final de contas com os vários mundos dessas
gentes com quem me cruzo, trago-os para dentro de mim: na mesa do salão, com
talheres de prata, numa folha de árvore e as pontas dos dedos, sentada numa
almofada de areia, no meio de um campo onde despontam pequenas flores amarelas,
brancas, roxas, azuis pedindo com ternura: não te esqueças de mim!
Despedida
Querido governo,
Deixo-te a minha oração ao levantar o
pé quando subi para a manga de um avião na minha Portela, hoje porta de um país
devastado, sem alegria, sem carnaval, onde não quero estar, onde me vejo grega
para ser quem quero, onde até o amor é uma obrigação para pagar dívidas, onde
não quero pagar nem mais um tostão de juros ou dívida que não fiz ou pedi, nem
vos cobrir o bluff, na jogada de poker com que me têm usado:
-“Vou partir, naquela estrada onde um
dia cheguei a sorrir”: podes ficar com as auto-estradas, as scuts, os bancos
falidos, os submarinos, os centros comerciais, os empreendedores com punho, os
carros de alta cilindrada das facturas sem sorte, as motas do soares dos
pobrezinhos, os bifes da jonet, os corruptos, os partidos políticos, os
deputados, o espírito santo e o homem que em lugar das células tem um cavaco
que são embirrentos e parecidos contigo.
Quiçá com os lusos que já partiram,
podemos fundar um novo país, talvez nas Selvagens, com um acordo Selvagen com
interdição à vossa entrada.
Levo o fado, o cante, o queijo da
serra, os vinhos, o sol, a serra algarvia e o Alentejo!
Retrato de António Barbosa,
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