quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Mundo ao contrário

Tenho fome!
Tenho pressa!
de ver um ventre prenhe de esperança e entusiasmo
onde no seu seio assista a vida se nutrir devagar
onde a fome não seja uma arma de morte
onde o parto não venha da pressa de matar
para que o brilho que vem de dentro
não deixe de iluminar o caminho da vida
a minha metáfora para o mundo inspirada na beleza da pintura do meu sobrinho Sidney Cerqueira

sábado, 25 de outubro de 2014

Traços de momentos e viagens

Ontem, falei sobre o livro e deu-me que pensar: em viagens  :) 

Sobretudo na que estou agora a fazer. Talvez a mais importante entre as mais importantes. Registada num outro livro.
Quando entrei na estação do nascimento nem imaginava este empreendimento que seria a minha vida. No maior e mais perfeito relacionamento que a viagem da vida oferece.  Vida feita de olhares, cores, risos e brilho, em estações com gente. Gente que rega os meus sorrisos, planta sementes de amor, que duram uma vida, vê com sorrisos crescer os frutos e, limpa as lágrimas que caiem quando chegam os outonos e os invernos.
Como na natureza assim somos as estações por onde passamos, paramos, ficamos ou seguimos.
Tenho a certeza que esta é a razão para comprarmos o bilhete desta viagem. Visitarmos estações. Com gente. Tomarmos um cappuccino, ficarmos nelas, com elas, partilharmos risos, enxugarmos lágrimas e despedirmo-nos um dia. 
Para a viagem final. 
Os bilhetes nunca esgotam. para cada dia iniciarmos uma viagem ou continuarmos a nossa.
Quando a morte me chamar no quadro electrónico, vou roubar-lhe a avareza: matando-a com a beleza das cores das minhas viagens. 
Incluindo esta que agora faço entre montes de uma serra e amigos, que me deixam com marcas que guardo com avareza.

Obrigada a todos os que me semeiam, regam e colhem nesta viagem de vida. E são muitos. Todos os dias recebo colheitas.

Obrigada Luisa Silva e Jacinto Furtado por regarem as palavras a este meu livro,e, às letras que vão espalhando em meu nome. 
Obrigada Luís Joyce Chalupa e Cristina Stoffel por me darem esta estação actual. 
Obrigada a quem anda por aí a oferecer terreno às minhas palavras, lendo-as. 
E agora, também ao Jornal de Monchique que também me fará chegar a mais uns, que se ligarão a esta minha viagem.
Que é tudo o que um autor pode desejar: companhia sem avarezas enquanto dura o percurso da viagem.

sábado, 18 de outubro de 2014

"A poesia é para comer"

Encontro entre um homem e a poesia. Peça de teatro.

Um jardim frondoso de aloés, romãzeiras, relva alta. Cadeiras e mesas de ferro branco espalhadas aqui e ali, poeticamente espalhadas.
Grupos de cogumelos e trevos de quatro folhas saíam dos seus esconderijos, agradecidos à humidade da terra.

Pequenos pedaços de cortiça pintados, presos por cordas de sisal aos troncos das nogueiras, laranjeiras e limoeiros de todas as alturas. Alguns ramos tocam o chão, carregados de frutas, amarelo brilhante. Uma estaca de madeira, com uma garrafa de água cortada faz de bebedouro para os pássaros, junto a uma pequena fonte.

O silêncio é tranquilizador, quebrado pela fonte que deixa a água escorrer lentamente para a garrafa cortada. Ao fundo ouvem-se acordes de um piano.
O jardim cheira a jasmim e a erva-príncipe.

Um homem sentado numa das cadeiras de ferro, com uma caneca de chá pousada na mesa, lê em voz alta:

…”Sou uma impudência à mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer! “

A poesia sentada ao seu lado levantou-se, simulou uns passos de dança afirmando segura:

-Castrarei quem tentar castrar um poeta!
Alimento-me de poesia como prato principal da vida, em cada sobremesa das minhas refeições.
Bebo-a até ao final de cada garrafa.
Deixo-a marinar nas cortiças de poemas onde os sonhos repousam, ganham corpo e sabor.
Trago-a sem pudor.

O homem, alto, magro demais para a sua altura, de cabelos ralos e grisalhos, de olhar sombrio, duro com a vida, amaciou o olhar que se tornou da cor da erva doce e voltando-se para a poesia assegurou-lhe:

-Cada dia que passa, mais poesia me acompanha. Mais percebo sobre a vida, quando contemplo o florir de cada dia, como se fosse um poema.
Quando a vida é vulgar e arrogante, quando me coloca a caminhar sobre gelo fino, ou quando não me oferece uma saída…é quando mais preciso de poesia.
Quando me traz amor, liberdade, alegria, fusão com outras almas, ligação de pensamento com outros seres, é quando mais preciso da manifestação da poesia, porque o poema acontece, dentro de mim.

A poesia interrompeu-o docemente observando a emoção vinda daquele homem:

-Os poetas não precisam de estações. Nem de inspirações. A eles basta-lhes a vida. E ouvir a fonte interna, que corre ininterrupta, para além dos limites do coração, inundando-lhes o ser.
Bastam-lhes os sentimentos e as emoções para tão nobre arte ficar exposta.

Nasce a poesia, quando o coração se desfaz em pedaços sem conserto. Quando carregam por tempo demasiado o fardo imposto por uma vivência.
Na obrigatória convivência com aqueles outros que os perturbam. Quando a vida falha. E descompensa, desequilibrando.

Nasce quando um amor não é correspondido. Quando têm de se desprender de alguém que parte numa direcção oposta.
Nasce do fim do amor que a morte abraçou.
Nasce da morte física de um ser amado. Nasce quando se apercebe que é o fiel depositário do seu corpo e não o seu proprietário.
Nasce na urgência de se dar. Porque a poesia não lhe pertence. Nasce da consciência. De se saber inconsciente.
Nasce quando a alma chora porque se sente vazia
e como num milagre é inundada... por poesia.
Nasce a poesia quando o poeta se maravilha perante um milagre. Quando se espanta perante o brilho de um raio de sol a espreitar por entre nuvens matizadas de cinzento.
Qualquer espanto maravilhado é um poema.
Nasce quando lhe regressa o amor ao coração. Ao espírito, à alma.
E renasce ao seu estado de união e ligação com todos.
Nasce no desespero da alma. No sofrimento de quem não quer luz.
Quando o homem chora, no sal das suas lágrimas.
No doce e no sal, por todos os motivos, de dor ou alegria, nasce poesia.
Nasce quando vislumbra um novo olhar sobre a lua que nasce e o sol esconde.
Quando se deixa sentar, no colo do poema, em silêncio, e, observa a quietude.
E nesse silêncio encontra palavras que rompem poeticamente  inundando a seca vida dos que não são poetas.
Na vida daqueles que a sentem e se emocionam porque encontram a vida na poesia.
Em mim. Que me dou cada dia para que me encontram.

O homem com um profundo suspiro de compreensão e agradecimento à poesia falou sem a olhar directamente.
Ela, a poesia, rodeava-o em contemplação:

-É poesia que encontro ao observar os pássaros sentados no diospireiro carregado de frutos maduros. Na bagagem das suas asas trazem a sabedoria do mundo. Enquanto sem pressa ali se deixam despertar pela doçura das flores que os rodeiam.

As flores, as árvores, os frutos sussurram: comam-me, somos poesia.
Os riachos, os lagos, as nascentes oferecem a água com um doce cantar que inunda as emoções: bebem-nos, somos poesia.

Uma caixa de chocolates, um copo de vinho.
Um beijo, um toque, um olhar. Um assentimento, um silêncio. Um sorriso. Uma gargalhada. Um abraço. Uma carícia. Um murmúrio. Uma lágrima.
Em tudo vejo poesia.

Mas um poeta, esse transforma toda a vida em poesia.
E dela faz um poema: no esplendor de todas as estações.

na chuva e no frio, junto do fogo de uma lareira,
no brilho do sol, os pés amaciados pela areia da praia,
no mar que lambe docemente uma pele
no amarelo matizado do castanho do outono
no amarelo matizado do verde da primavera
no amarelo matizado do azul do verão
no amarelo matizado de vermelho do inverno

O poeta vai até ao limite do conhecido, lança-se com fé no abismo desconhecido e... renasce com a poesia.

A poesia tem de ser a minha companheira, inseparável, até ao final dos meus dias.
Dos nossos tempos.
Sem poesia não saberia como dizer, como fazer, ou o que fazer com o mundo.
Ah como eu queria ser poeta. Mas conformo-me...
porque vivo rodeado de ti poesia…

A poesia satisfeita por ter sido encontrada neste jardim mágico, por mais um poeta, abriu as suas asas e voou para encontrar novo coração, não sem antes dizer com voz serena e cristalina:

-Os poetas exprimem-me. Sabem sempre de onde vêm todas as emoções do mundo. E trazem-nas à luz pelas palavras. Da noite fazem dia.

Como a água seguem o curso inevitável, de desaguar em poemas.
Alimentam a música com poesia. Regam a poesia com música.
...Não castrem a poesia. Comam-na nas imagens. Bebam-lhe as palavras. Sorvam-na nos sonhos.

O Homem bebendo o chá que restava da sua caneca, olhando tanta beleza à sua volta, prometeu-lhe:

- Nesta viagem maior que é a minha relação, sempre em construção, comigo próprio, não vivo sem o alimento que me vem de ti, no poema da vida.

Contigo poesia…aprendo e estudo! Mergulho na sabedoria que me dás.
Não, não vivo sem ti. Nem quero viver.
Nem sem música que é ela própria poesia.

Muito menos sem os poetas.
Castrarei quem os tentar castrar.

O sol mansamente observava o homem, e, encostava-se lânguidamente ao ocaso, deixando um rasto de tons quentes entre o rosa e o azul, atravessando o laranja até ao vermelho.
Um poema escrevia-se no céu.

A poesia voltando atrás e fez o homem levantar a cabeça, agarrando-o no queixo:

-Vês ali? Saberão eles que a formação, em forma de asa de borboleta é um poema?

Um bando de pássaros cruzava o céu, por cima da casa, levando poesia na ligação migratória entre eles.

Tal qual a missão da poesia entre os homens: interligá-los.

Fim




quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Contos da avuelita...em África

Era uma vez…
Um menino de uma tribo.
Ngozi entre muitos irmãos, das várias mulheres do seu pai, escolheu Mara filha da terceira mulher do seu pai, para com ela dividir o seu pequeno mundo.
Nesse mundo Ngozi tinha construído um círculo à sua volta. Lá dentro apenas entrava Mara a sua irmã. E alguns amigos imaginários. Parecia-se com todos. Nada os diferenciava. Pensavam e falavam da mesma maneira. Tinha tomado a decisão de não se confundir. Via-se reflectido naqueles seus amigos porque todos eram iguais.
Cada dia que se aproximava da prova de valentia e virilidade construía um muro mais alto. Não queria, não queria…«Ngozi, ( dizia-lhe um dos seus amigos), ao elevares o teu muro, cresces mais depressa. Deixa-te ficar apenas no teu círculo. Estás protegido por nós»
Ngozi isolava-se e cada dia estava mais taciturno. Mara era a única alegria da sua vida. Era uma menina radiosa, vibrante, cheia de vida, linda como o primeiro raio de sol que o despertava todas as manhãs, na imensa savana tão sua familiar.
-«Ngozi anda, vamos fugir!» Ngozi assustou-se. Fugir? Aquela menina não era daquela sua tribo…como podia pensar em fugir? «estás louca Mara? Então e as minhas obrigações? E as tuas?»
Rindo-se sem fim, Mara agarrou a mão do seu irmãozinho e puxou-o: «para já vamos fugir da aldeia. Os baobab estão cheios de frutos. Anda…»
De barriga cheia, deitados debaixo da árvore mais larga que conheciam, sagrada e bela, pensavam nas suas respectivas sortes…
«Mara a ti cabe-te ser escolhida e comprada por algum homem da tribo e viver debaixo das suas regras e obrigações, que inclui seres tratada como um pilão de amassar o milho. Uma vaca é tratada com maior respeito», dizia infeliz Ngozi... «Mas eu vou-te proteger sempre e se algum homem te tentar fazer mal, eu mato-o com a minha lança»!
Hihihihi ria-se Mara contente…« meu irmãozinho, tu? Não és capaz de matar ninguém, mas sei que me queres bem e que me vais sempre proteger. Prepara-te antes para a tua prova, tu sim tens um leão maior do que o meu para enfrentar e vencer. Estou preocupada por ti. Ao contrário do que te dizem os teus amigos, esses imaginários, tu devias sair, brincar com outros rapazes e preparar-te para a vida dura que vais ter : caçar, cruzar fronteiras, cuidar de várias mulheres... És tão frágil Ngozi, tão fechado…. Primeiro vais ter de matar um leão, com a tua lança, para provares a tua virilidade e isso parece-me tão improvável meu irmão… que vai ser de ti?...»
Se algum dia pudermos, fugimos, pensou Ngozi sem nada dizer. Tinha que pensar num plano…
Calaram-se e ficaram a pensar no destino que lhes cabia em sorte.
Ngozi adormeceu. Naquele momento não tinha medo, estava ali com Mara, fora dos limites da aldeia e nada de mal lhes podia acontecer. Os pais estavam nas suas rotinas diárias e eles pouco contavam para a vida da tribo.
Mara pegou na flecha do irmão e aventurou-se. Queria tanto quanto o irmão libertar-se daquele mundo de regras, obediências e obrigações. Por Ngozi e por si tinha de pensar num plano…
Caminhava sem olhar por onde ia. De repente estacou com um barulho quase imperceptível a ouvidos de quem não convivesse com os segredos da savana.
Voltou-se em direcção ao barulho, que vinha do sítio onde tinha deixado Ngozi adormecido. Procurando ser silenciosa, o que bem sabia com os seus 12 anos de treino nas brincadeiras, aproximava-se e o que viu deixou-a gelada.
Um leão, a poucos metros olhava para Ngozi parado. Preparando o salto.
Em poucos segundos, tantos quanto demora um pensamento a transformar-se em acção de sobrevivência, Mara agarrou a flecha e colocou-se em posição de disparar.
Ngozi tinha-lhe ensinado a arte para a qual se preparava há 14 anos. A sua prova de virilidade, de coragem e de força. Não podia dar tempo a que o leão se apercebesse dela.
Se hesitasse Ngozi morria e ela também. Àquela distância não costumava falhar nas árvores. Não podia falhar agora, pensou num último segundo.
Como um verdadeiro guerreiro, Mara puxou a flecha e disparou.
O leão deu um salto com a surpresa do embate e caiu ao lado de Ngozi. Mara a tremer de medo, correu a puxar o seu irmãozinho que estava acordado a chorar, com as mãos a cobrirem-lhe o rosto:
-Ngozi estás bem?
-Sim Mara, disse Ngozi por entre os soluços, que aconteceu?
Mara contou-lhe e abraçaram-se a chorar.
-Anda vamos voltar para a aldeia, contar que mataste um leão. Está aqui a prova. Vamos antes que o leão ferido se atire sobre nós…
-Mara minha irmãzinha, não vês que lhe acertaste no coração? Está morto, mas foste tu que o mataste, não eu.
-Mas a aldeia não sabe, só nós. E sabemos que tu não querias que isto acontecesse, mas tinhas de passar por esta prova. Anda, corre! Não vês que esta é a prova de que podemos fazer o que quisermos?
Correram de mãos dadas. De vez em quando olhavam para trás. O leão não tinha fugido. Mara acertara como só os grandes guerreiros, corajosos e viris conseguem. E salvara Ngozi.
Nessa noite a festa na aldeia foi rija. Celebrava-se a bravura de Ngozi com cantos, danças, comida e muita bebida. Ninguém estava mais contente que Mara. Ngozi pouco participava, mas como lhe era reconhecido um carácter fechado, ninguém prestou importância.
Ninguém o viu desaparecer da festa horas depois desta ter começado.
Ninguém o viu ir buscar Mara, com um pequeno saco, a flecha e alguma comida (que tinha roubado da festa) e, partirem da aldeia.
Prometera a Mara que a iria proteger da vida que lhe tinha cabido em sorte. Ela tinha-o protegido com a sua própria vida.
Cabia a Ngozi cumprir a sua parte da promessa de fugirem em busca da vida que queriam e não a que lhes era imposta.
Nessa madrugada, antes do sol de novo lhes desejar um bom dia, desapareciam por caminhos empoeirados, rumo a outros mundos. Nessa noite Ngozi quebrava o seu muro e abria o círculo. Outros amigos haveriam de entrar. Matara o seu leão.
Aquela era a casa de ambos. A família. O mundo que conheciam. A herança das suas vidas.
Mas não as suas fronteiras.

Dança

Se não cresci até aos 50, então, a partir de agora, também já não vale a pena!
Já não quero mais crescer.
Cada dia aprenderei mais um passo da coreografia e…
danço-me,
Porque se encurta o tempo,
deixar-me-ei apaixonar apenas por quem me perguntar:
-o que andas a dançar?
Como num livro de poesia, juntar-me-ei no verso,
Com a química entre um espiritual cadenciado e um poema
Abraçar-me-ei ao ritmo,
deixarei que a dança se transborde em mim

até ao acorde que fizer o passo final.

Pintura de Sidney Cerqueira

sábado, 27 de setembro de 2014

Se ela sonhasse, Mini conto

"A minha vida é baseada numa história verdadeira"-

" O que é mais verdadeiro que a verdade?" : - Uma História! (ditado judeu)

Este é agora, o meu desafio na escrita, sob o efeito da serra. Contar histórias na tradição mais antiga da Humanidade.

Partilho mais uma estória, baseadas em estórias reais que me vão contando, onde o destino, o diabrete vestido de bobo, faz a sua aparição.
Quem não tem uma?
Numa dança alma,corpo e espírito estão entrelaçados e dizem: o destino apanha-te, mesmo que não queiras ou sonhes.
Os nomes são fictícios, naturalmente.
Obrigada por me lerem.

Se ela sonhasse…

De novo olhou o cigarro, antes de puxar o último trago para os pulmões. Aproximava-se das letras junto ao filtro. Só fumava até às letras. Era o seu trato consigo própria. E com o cigarro.
«Não sei o que estou aqui a fazer» pensou, olhando para a ponta do cigarro, «nem o que estou a pensar que me vai ainda acontecer; assim que chegar às letras vou-me embora».
O bar apinhado não era convidativo, o grupo de músicos era demasiado mau para ali se deixar ficar. Gostava de ficar ali quando a música a chamava. Esta não e, no entanto, sentia que devia estar ali. Deixou-se ficar. Até chegar às letras…prometeu-se.
Havia um ano que se sentia em paz.
Finalmente tinha tomado a decisão certa, deixar Mário, regressar à música clássica, às aulas, a voltar a sair com novos amigos e mudar de casa. Para aquele bairro de casas baixas, quase uma aldeia dentro da cidade de prédios altos, cobertos pela falta de bom gosto de quem os projectara. Pelo menos ali sentia a vida longe do medo e da insegurança que a tinham possuído ao longo dos seus trinta anos.
Conversava com os vizinhos, que não olhavam desconfiados para quem era diferente. Ali todos eram diferentes. Ninguém na sua rua parecia ter tido, alguma vez, vida fácil. Mas tinham feito as pazes com a vida. Falavam-se uns aos outros. Partilhavam risos, estórias, conselhos, pequenos nadas e, até abraços.
Cumprimentavam-se na mercearia, no café, no talho. Algumas vezes até se visitavam para um café e um cigarro partilhando momentos da vida. Sem queixas. Aceitavam o destino. Parecia haver um acordo silencioso neste ponto.
Falavam do destino como mais um companheiro que com eles comia à mesa. Deixavam-no entrar, beber o fundo da garrafa e comer as sobras.
Pensavam «afinal de contas, chegas sem avisar e levas-nos sempre a melhor». Melhor mesmo, era não fazer planos. Ficar ali à espera deste companheiro de todas as horas. Fizessem o que quisessem, ele viria sempre surpreendê-los a todos. Imaginavam então o destino a rir-se, de quem o tentava desafiar. Riam-se com gosto e tocavam as garrafas:
- «Saúde! Ao destino»!
Tinha acertado em querer estar ali. Era membro daquela associação sem membros com assinaturas de gente com vidas inteiras.
Lême conseguira tirar da cabeça o nome que carregara por anos. Não se importava que algum sentimento novo a tomasse pela mão, pelo colo, pelo coração. Mas “isso” só surge se o destino quiser.
Se ela sonhasse…
Deu a última baforada. Tinha chegado às letras e atirou o cigarro ao chão, esborrachando-o. Tinha uma leve sensação de peso no peito. Inexplicável.
«Olá, tu aqui?»…
Numa fracção de segundo o seu coração disparou a correr e a saltar todos os obstáculos, todos os que encontrava para chegar à voz…
Reconheceria aquela voz, onde quer que fosse, mesmo que os ouvidos perdessem a audição. No segundo em que o seu cérebro procurava dar a ordem de reacção aos olhos e à fala, sentiu-se transportada para outra dimensão. Mente, corpo e espírito, entrelaçados, reagiram, com o pequeno toque no ombro e de novo a voz : « Lême…»
«…Jorge…»
Não se viam, não se falavam há anos. Tantos quanto tinha durado a sua relação com Mário e para além dela. Anos demais.
Das várias vezes que o acaso os juntara no mesmo lugar, mal se tinham falado, para além do longo encontro do olhar. Jorge e Mário era amigos, ambos músicos, partilhavam algumas noites de bares, a tocar.
Ela e Jorge nunca tinham sido capazes de se falar a não ser com o olhar. Mário era possessivo e os amigos conheciam o seu génio.
Os olhares, entre Lême e Jorge reflectiam o medo, vindo da necessidade de irem para além, do que os olhos viam.
A alma, essa sábia em forma de nuvem sabia do que não era dito.
A vida prosseguia veloz e impiedosa, sem noção de como o tempo poderia ser implacável para com eles. Cada um desbravava os seus caminhos nos atalhos da vida.
Até este dia. De novo implacável ao fazê-los ficar frente a frente. Agora tinham mesmo de falar. De dizer o que tinha sido calado nos olhares.
Passaram a noite juntos, e, muitas noites depois.
A correr as dezenas de ruas pequenas e estreitas que interligavam as casas feitas de pedras, pequenas e baixas. Algumas tinham pedras salpicadas, pintadas de várias cores, o que dava ao bairro um colorido criativo e festivo.
Numa daquelas dezenas de ruas, também Jorge encontrara a casa onde vivia. Percorriam aquelas ruas diariamente, sem nunca se terem encontrado.
Ela sabia que tinha tomado a decisão certa de se mudar para ali. Naquela noite, sem saber qual a razão, depois do concerto clássico a que assistira no centro da cidade; sentira necessidade de ficar sozinha, ir até ao bar onde um grupo de músicos desconhecidos tocava. O bar estava apinhado e a música era má. A sua formação era clássica. Nem toda a música moderna lhe agradava. Era um preconceito com algumas coisas da música pop que agora se fazia. Ou apenas um gosto por música de qualidade.
Nem nos seus sonhos tinha imaginado que Jorge a quisesse. Tinha tido medo de Mário durante vários anos e submetia-lhe as suas vontades. Incluindo as suas amizades e modo de vida. Com a obsessão que tantas vezes confundimos com amor. Ou medo. Da solidão e da incerteza.
Nesses dias distantes, quando encontrava Jorge, pressentia quando se olhavam, que algo o retinha. Ela sentia medo. Um medo inexplicável de lhe falar e de não voltar. Ele sentira igual e agora confessava-o, enquanto percorriam as ruas desertas.
Estavam a dar início à aprendizagem da linguagem do amor. Que se aprende apenas quando perdemos a fala. Quando regressamos à presença da pessoa reconhecida pela alma. Que o destino nos oferece de presente. Quando todos os dias se tornam dias de Natal.
O laço entre a vida e o destino não se desfazia. Mesmo que tentassem.
Nesse instante, quando levantou o seu olhar e nele encontrou os olhos de Jorge, o medo dissipou-se por fim.
Sem pressa, sem medo, o destino, esse diabrete vestido de bobo, encontrou-os. E as suas vidas transformaram-se num doce canto, colorido e festivo.
Abraçaram-se no mais demorado abraço que a memória podia guardar.
-«posso-me perder?»
-«porquê?»
-«para te encontrar»…

Mesmo perdidos, o destino, sem pressas, premeditara. Os dois caminhos tinham-se encontrado.
Não sabia que vontade idiota a tinha arrastado até ao bar.
Se ela sonhasse…

Finalmente sabia!



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Quem sou?

Porque hoje celebra-se a independência da terra que guarda o meu umbigo: Guiné-Bissau.

Obrigadinha por lerem cenas minhas aqui e no fb

Sinto-me guineense,
Papel, fula bijagó, doce, zangada, apaixonada
Sinto-me portuguesa,
Grega, romana, visigoda, exploradora, explorada, marinheira, magoada
Sinto-me angolana,
Quimbunda, ovimbunda, negra, branca, caçadora da vida
Sinto-me timorense,
Ilhéu, vulcão, continental, triste, vulnerável
Sinto-me asiática, indiana,
Hindu, budista, cristã, muçulmana, filósofa
Sinto-me europeia,
Judia, árabe, caucasiana, cigana, aventureira
Sinto-me santomense
Lenta, veloz, desalmada, faixa de Gaza, rainha
Sinto-me brasileira
Escrava, libertadora, comerciante, ladra, justa, guerreira, frágil
Sinto-me caribenha
Mulata,cor carapinha,olhar limpo,
cabelo despenteado, negra
cor dos direitos humanos,
Sinto-me moçambicana
Continente, governadora, dona de escravos, vendida,vendedor
Sinto-me cabo-verdiana
Olhos de sabor avelã,
com a esperança da cor de mar verde,
fio de cabelo castanho, feliz
Sou o pôr do sol, o amanhecer da vida em cada dia
sou uma história feita de estórias
em versos de uma prosa demorada
Eu sou todos
Quando me relaciono com os outros
descubro-me e completo-me
nem totalmente boa, às vezes má,
sem rancor nem preconceito
oprimida e livre,
diferente,
igual a todos,
sou vagabunda, sombria
sou a imperfeição do ser
Sou átomos de todos
e todos têm moléculas de mim
Pertenço a tribUs em cada lugar
de cada coração que abraça o meu
e em lugares sem gravidade
deixo excessos de bagagem
sou a dança com o ritmo das letras,
sou o gingar da música global,
a liberdade da alma
sou a escrita com alma,
sou a que se deixa conduzir
pela sublime literatura universal
de poetas e escritores,
filósofos, criadores
e doadores
dos mais elevados sentimentos,
sinto com um coração,
Que pulsa sangue vermelho…
sou, apenas sou,
pó de estrelas
calçada de liberdade
despida de medo
vestida de paixão transparente
um pouco de nada, muito de tudo
Nas casas das minhas tribUs
sou...de todas as cores,
humana