"A minha vida é baseada numa
história verdadeira"-
" O
que é mais verdadeiro que a verdade?" : - Uma História! (ditado judeu)
Este é agora, o meu desafio na escrita, sob o efeito da serra. Contar histórias
na tradição mais antiga da Humanidade.
Partilho
mais uma estória, baseadas em estórias reais que me vão contando, onde o
destino, o diabrete vestido de bobo, faz a sua aparição.
Quem não tem uma?
Numa dança alma,corpo e espírito estão entrelaçados e dizem:
o destino apanha-te, mesmo que não queiras ou sonhes.
Os nomes são fictícios, naturalmente.
Obrigada por me lerem.
Se ela sonhasse…
De novo olhou o cigarro, antes de puxar o último trago para os pulmões.
Aproximava-se das letras junto ao filtro. Só fumava até às letras. Era o seu
trato consigo própria. E com o cigarro.
«Não sei o que estou aqui a fazer» pensou, olhando para a ponta do cigarro,
«nem o que estou a pensar que me vai ainda acontecer; assim que chegar às
letras vou-me embora».
O bar apinhado não era convidativo, o grupo de músicos era demasiado mau para
ali se deixar ficar. Gostava de ficar ali quando a música a chamava. Esta não
e, no entanto, sentia que devia estar ali. Deixou-se ficar. Até chegar às
letras…prometeu-se.
Havia um ano que se sentia em paz.
Finalmente tinha tomado a decisão certa, deixar Mário, regressar à música
clássica, às aulas, a voltar a sair com novos amigos e mudar de casa. Para
aquele bairro de casas baixas, quase uma aldeia dentro da cidade de prédios
altos, cobertos pela falta de bom gosto de quem os projectara. Pelo menos ali
sentia a vida longe do medo e da insegurança que a tinham possuído ao longo dos
seus trinta anos.
Conversava com os vizinhos, que não olhavam desconfiados para quem era
diferente. Ali todos eram diferentes. Ninguém na sua rua parecia ter tido,
alguma vez, vida fácil. Mas tinham feito as pazes com a vida. Falavam-se uns
aos outros. Partilhavam risos, estórias, conselhos, pequenos nadas e, até
abraços.
Cumprimentavam-se na mercearia, no café, no talho. Algumas vezes até se visitavam
para um café e um cigarro partilhando momentos da vida. Sem queixas. Aceitavam
o destino. Parecia haver um acordo silencioso neste ponto.
Falavam do destino como mais um companheiro que com eles comia à mesa.
Deixavam-no entrar, beber o fundo da garrafa e comer as sobras.
Pensavam «afinal de contas, chegas sem avisar e levas-nos sempre a melhor».
Melhor mesmo, era não fazer planos. Ficar ali à espera deste companheiro de
todas as horas. Fizessem o que quisessem, ele viria sempre surpreendê-los a
todos. Imaginavam então o destino a rir-se, de quem o tentava desafiar. Riam-se
com gosto e tocavam as garrafas:
- «Saúde! Ao destino»!
Tinha acertado em querer estar ali. Era membro daquela associação sem membros
com assinaturas de gente com vidas inteiras.
Lême conseguira tirar da cabeça o nome que carregara por anos. Não se importava
que algum sentimento novo a tomasse pela mão, pelo colo, pelo coração. Mas
“isso” só surge se o destino quiser.
Se ela sonhasse…
Deu a última baforada. Tinha chegado às letras e atirou o cigarro ao chão,
esborrachando-o. Tinha uma leve sensação de peso no peito. Inexplicável.
«Olá, tu aqui?»…
Numa fracção de segundo o seu coração disparou a correr e a saltar todos os
obstáculos, todos os que encontrava para chegar à voz…
Reconheceria aquela voz, onde quer que fosse, mesmo que os ouvidos perdessem a
audição. No segundo em que o seu cérebro procurava dar a ordem de reacção aos
olhos e à fala, sentiu-se transportada para outra dimensão. Mente, corpo e
espírito, entrelaçados, reagiram, com o pequeno toque no ombro e de novo a voz
: « Lême…»
«…Jorge…»
Não se viam, não se falavam há anos. Tantos quanto tinha durado a sua relação
com Mário e para além dela. Anos demais.
Das várias vezes que o acaso os juntara no mesmo lugar, mal se tinham falado,
para além do longo encontro do olhar. Jorge e Mário era amigos, ambos músicos,
partilhavam algumas noites de bares, a tocar.
Ela e Jorge nunca tinham sido capazes de se falar a não ser com o olhar. Mário
era possessivo e os amigos conheciam o seu génio.
Os olhares, entre Lême e Jorge reflectiam o medo, vindo da necessidade de irem
para além, do que os olhos viam.
A alma, essa sábia em forma de nuvem sabia do que não era dito.
A vida prosseguia veloz e impiedosa, sem noção de como o tempo poderia ser
implacável para com eles. Cada um desbravava os seus caminhos nos atalhos da
vida.
Até este dia. De novo implacável ao fazê-los ficar frente a frente. Agora
tinham mesmo de falar. De dizer o que tinha sido calado nos olhares.
Passaram a noite juntos, e, muitas noites depois.
A correr as dezenas de ruas pequenas e estreitas que interligavam as casas
feitas de pedras, pequenas e baixas. Algumas tinham pedras salpicadas, pintadas
de várias cores, o que dava ao bairro um colorido criativo e festivo.
Numa daquelas dezenas de ruas, também Jorge encontrara a casa onde vivia.
Percorriam aquelas ruas diariamente, sem nunca se terem encontrado.
Ela sabia que tinha tomado a decisão certa de se mudar para ali. Naquela noite,
sem saber qual a razão, depois do concerto clássico a que assistira no centro
da cidade; sentira necessidade de ficar sozinha, ir até ao bar onde um grupo de
músicos desconhecidos tocava. O bar estava apinhado e a música era má. A sua
formação era clássica. Nem toda a música moderna lhe agradava. Era um
preconceito com algumas coisas da música pop que agora se fazia. Ou apenas um
gosto por música de qualidade.
Nem nos seus sonhos tinha imaginado que Jorge a quisesse. Tinha tido medo de
Mário durante vários anos e submetia-lhe as suas vontades. Incluindo as suas
amizades e modo de vida. Com a obsessão que tantas vezes confundimos com amor.
Ou medo. Da solidão e da incerteza.
Nesses dias distantes, quando encontrava Jorge, pressentia quando se olhavam,
que algo o retinha. Ela sentia medo. Um medo inexplicável de lhe falar e de não
voltar. Ele sentira igual e agora confessava-o, enquanto percorriam as ruas
desertas.
Estavam a dar início à aprendizagem da linguagem
do amor. Que se aprende apenas quando perdemos a fala. Quando regressamos à
presença da pessoa reconhecida pela alma. Que o destino nos oferece de presente.
Quando todos os dias se tornam dias de Natal.
O laço entre a vida e o destino não se desfazia. Mesmo que tentassem.
Nesse instante, quando levantou o seu olhar e nele encontrou os olhos de Jorge,
o medo dissipou-se por fim.
Sem pressa, sem medo, o destino, esse diabrete vestido de bobo, encontrou-os. E
as suas vidas transformaram-se num doce canto, colorido e festivo.
Abraçaram-se no mais demorado abraço que
a memória podia guardar.
-«posso-me perder?»
-«porquê?»
-«para te encontrar»…
Mesmo perdidos, o destino, sem pressas, premeditara. Os dois caminhos tinham-se
encontrado.
Não sabia que vontade idiota a tinha
arrastado até ao bar.
Se ela sonhasse…
Finalmente sabia!