sexta-feira, 11 de abril de 2014

Quem sou?

Dia do autor 22 de Maio. Obrigada a quem me lê

Numa entrevista quando lancei o livro Traços de momentos e viagens perguntaram-me: Como é que te identificas? (quem sou)
Não soube responder logo quem era. Sei e escrevi.




Sinto-me guineense,
Papel, fula bijagó, doce, zangada,apaixonada
Sinto-me portuguesa,
Grega,romana, visigoda, exploradora,explorada, marinheira, magoada
Sinto-me angolana,
Quimbunda,ovimbunda,negra,branca, caçadora da vida
Sinto-me timorense,
Ilhéu,vulcão,continental, triste, vulnerável
Sinto-me asiática,indiana,
Hindu, budista, cristã, muçulmana, filósofa
Sinto-me europeia,
Judia, árabe, caucasiana,cigana, aventureira
Sinto-me santomense
Lenta,veloz,desalmada, faixa de Gaza,rainha
Sinto-me brasileira
Escrava,libertadora,comerciante, ladra, justa, guerreira, frágil
Sinto-me caribenha
Mulata,cor carapinha,olhar limpo, cabelo despenteado
Sinto-me moçambicana
Continente, governadora, dona de escravos, vendida,vendedor
Sinto-me cabo-verdiana
Olhos de sabor avelã, com a esperança da cor de mar verde, fio de cabelo castanho, feliz

Sou o pôr do sol,
o amanhecer da vida em cada dia
sou uma história feita de estórias
em versos de uma prosa demorada

Eu sou todos
Quando me relaciono com os outros
descubro-me e completo-me

nem totalmente boa, mas não completamente má,
sou vagabunda, sombria
sou a imperfeição do ser

Sou átomos de todos
e todos têm moléculas de mim

Pertenço a tribUs em cada lugar
de cada coração que abraça o meu
e em lugares sem gravidade
deixo excessos de bagagem

sou a dança com o ritmo das letras,
sou o gingar da música global,
sou a escrita com alma,
sou a que se deixa conduzir
pela sublime literatura universal
de poetas e escritores,
filósofos, criadores
e doadores
dos mais elevados sentimentos,

sinto com um coração,
Que pulsa sangue vermelho…

sou, apenas sou,
pó de estrelas
calçada de liberdade
despida de medo
vestida de paixão transparente
um pouco de nada, muito de tudo

sou...humana

sábado, 1 de março de 2014

Lançamento do livro "Traços de momentos e viagens" a crónica

"Eu tenho muitos irmãos e nem os consigo contar, e uma irmã muito formosa que se
chama liberdade".
Um momento sem guião, sem rede, improvisado.
Planeado com amor mas sem ensaio. Do rascunho fez-se apresentação. De um livro. Numa viagem belíssima. De entrega e partilha.
Que vou guardar para o resto da minha vida, como um dos dias mais felizes que faz de mim uma pessoa mais rica. Por ter recebido a vossa energia de amor. Dos meus artistas e dos meus convidados amigos.
No amor o coração é o orgão que gera essa energia. E bastou-me deixá-lo falar quando aconteceu o momento. Espero ter estado à altura de vos merecer.
Fui importada para dentro de vocês, tenho a certeza, e, por isso sinto-me importante.Daí vem esta palavra.
Podemos ter vidas curtas porém temos a obrigação de não a tornarmos pequenas.
A cultura, as várias artes:literatura, musica, poesia, dança, canto, peças de bijouteria e a arte de fazer rir estiveram representadas. As artes estão vivas e de boa saúde. Vindas de mãos,mentes e corações maravilhosos. Estão nas melhores mãos. De gente de talento.

Quando eu não puder mais escrever...ficam as minhas letras
deixo um pedido final...não deixem as letras morrer... 

Com a enorme cortesia do Hotel Real Palácio a tribo foi recebida com um cocktail com “peaners”.
A viagem abriu com as palavras do meu irmão Réne num texto delicioso convidando os passageiros/convidados a entrar no longo curso que foi a apresentação. Ele sabe usar as palavras e comunicar. Ficámos logo cedo com o cinto apertado. Os "peaners" estavam servidos. Adorei
(crew on deck  doors closed)
Amigos,
A Comandante Simões Ferreira e a sua tripulação dão-lhes as Boas Vindas.
Esta nossa viagem terá aproximadamente a duração de uma hora, e qualquer semelhança com a apresentação de um livro, será pura coincidência.
Pedimos que desliguem ou silenciem os vossos telemóveis, não apenas para não perturbar a apresentação, mas também para nos poupar às Rhiannas, às Ladies Gagas e a outros toques de gosto duvidoso.
Não será permitido fumar, mas se tiverem por aí umas ceninhas para rir, falamos no fim... lá fora.
Durante a viagem, não vale a pena chamarem pela hospedeira que é surda e apenas uma, porque isto é um voo low-cost e não havia dinheiro para mais contratações.
Este espaço tem apenas uma saída pela retaguarda, exactamente aquela por onde entraram.
Definitivamente, e em caso de despressurização, não vão cair máscaras sobre as vossas cabeças porque estamos nisto de cara lavada.
Também recusamos o uso de coletes de salvação por muito divina e redentora que o Francisco no-la faça crer.
Durante a viagem, não será servida qualquer refeição porque detestamos o barulho de mastigar de boca aberta e porque, como diria o Jota das madeixas, isto para nós é ... “PEANERS”.
O destino... é aquele que cada um traçar para si próprio e as escalas são muitas, num esforço colectivo desta tribo, para tornar colorida a viagem...
Não distribuiremos mantas nem almofadinhas, porque queremos tê-los atentos do princípio ao fim da viagem e não queremos assistir àquele momento constrangedor de vos ver meter a manta na mochila à “sucapa” da tripulação.
Desejamos que façam uma boa viagem e esperamos voltar a vê-los em breve nas nossas linhas aéreas.”
Um must. Adorei.

A minha Tê, mãe da minha neta Alice, presente e estoicamente andando de mão em mão com apenas 2 meses, ofereceu-me as peças de arte que usei no pé e ao pescoço. É preciso ser uma brilhante artista para conceber aquelas peças. Gabadas a todo o momento. Eu, adorei servir de modelo!

A arte da minha querida Patricia abriu as lágrimas do voo. De tantos nos rirmos. A contar momentos reais recheados de humor vindos de uma açoreana maravilhosa que tem um talento ainda por lançar. Não é possível descrever, só vendo e ouvindo. “Cada vez que ela (eu) parte em mais uma viagem mando as minhas tias acenderem todas as velinhas de S.Miguel”. Adorei.

O meu filho Guilherme em substituição do meu filho Francisco que partilho com a minha amiga Isabel, apanhado de surpresa, disse maravilhosamente Ítaca, o poema sobre a viagem de Ulisses de Homero, poema esse que me foi oferecido num dos meus regressos à minha Ítaca, esta terra de pouca terra e pouca gente mas com muito talento. Adorei

A minha querida Anoka encheu o palco com a arte da dança oriental num momento de beleza rara, refinada e suave, com uma expressão musical através do corpo como só ela transmite. Adorei.

Os meus filhos Guilherme e Robalo numa surpresa teatral representaram o lançamento de um livro, literalmente. Sem ensaios,improvisado e cheio de humor e simbologia. Como só 2 actores talentosos e ricos em emoções conseguem transmitir. Adorei.

O meu querido escritor e actor Rui Calisto, falou e disse. Que eu sou irmã dele! Isso basta-me. É um homem que sabe comunicar por palavras o que lhe vai na alma e eu agradeço por isso. Adorei.

A minha sobrinha Yara e a minha prima Marta cantaram “não deixe o samba morrer” com o desafio das minhas palavras sobre mudar a palavra “samba” para “palavras”. A Yara tem uma voz doce,melódica, potente. Pertencerá brevemente aos talentos grandes da música. A Marta dedicou-me palavras de amor e cantou. As duas encantaram. Adorei.

O meu filho Pedro levou um piano (uma surpresa maravilhosa) e o meu amigo Eduardo Jordão mesmo doente, foi tocar acompanhado do Gui no pandeiro. Cantou “Sara” do álbum que está prestes a lançar.Atentem no nome.Ele é brilhante,maravilhoso e um imenso talento.Adorei.

Os Le Chat Pingad (Miguel,Tiago,Pedro e Gui) tocaram 2 temas lindos.Fecharam com “all of me” um clássico e toda a gente se envolveu no abraço da música e dos talentos destes jovens músicos. São muito bons, cada vez aprecio mais as suas qualidades. Adorei.

Os meus filhos Vanda, João Pedro,Lourenço,Diana,Gui,Tê e a actriz Isabel Martins foram convidados a ler excertos do meu livro. Não aconteceu porque chegámos ao destino.

Do livro falei eu, um pouco só. Como ali cheguei e como fui influenciada pelas artes desde tenra idade pelos meus avós, grandes na sua imensa cultura e talentos. Semearem e deu frutos.
Na influência que recebi dos meus pais, da família de sangue e dos amigos. Agradeci e agradeço hoje mais tranquila,sem os nervos próprios de quem não sabia o que ia acontecer nem como, sem mapa nem gps. Agradeço o quanto todos me são caros e preciosos. E importantes, porque os importei a todos para dentro do meu coração. Aos que estavam e os que não estavam mas sei que estavam.Tentei não me esquecer de ninguém,mas provavelmente isso aconteceu e peço desculpa.

Os meus traços são as minhas visões e aventuras por esse mundo fora, que espero que vos divirtam e aligeirem o espírito.

Às minhas várias tribos de Santo André/Tróia/Santiago do Cacém, Lisboa, Algarve, Porto, Coimbra, Aveiro, espalhados pela restante Europa, África, Ásia,Brasil,América Latina e Austrália, reunidas numa única tribo, obrigada.

Aos meus muitos irmãos que não consigo contar e, uma irmã muito poderosa que se chama Liberdade. Que um dia vai chegar.

As manifestações de artes estão de parabéns através dos talentosos artistas que ontem partilharam traços de quem são. Por mim. Sem esta gente linda a jam não tinha acontecido assim desta forma: perfeita.

Pelas manifestações de carinho que me vão chegando, foram um sucesso. Todos recebem paletes de elogios. Merecidos. O lançamento foi por isso um sucesso. O livro foi apanhado e começa a ter também, elogios. E eu fico assim, desmilinguida. Por tudo e por todos.
Um profundo agradecimento a quem esteve e a quem esteve mesmo não estando.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Traços de momentos e Viagens

Amanhã às 10:30 hora de PT darei a minha 1ª entrevista na RDP África sobre o lançamento dos meus Traços
África na casa oyéee!! 

Viva a literatura.
À noite lanço as minhas estórias, momentos e viagens para quem as quiser ler.
Um profundo agradecimento a todos.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Poesie-se , marcador

O marcador do livro Traços de momentos e Viagens

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Este blog transformou-se em livro :)



Tribo, oficialmente recebi a informação da editora Artelogy que o livro já está à venda a partir deste momento. O sorriso não descola
Podem espalhar à vontade.



Um livro que conta histórias e opiniões de lugares,países, pessoas e culturas em viagens recheadas de aventuras de humor, momentos, e personagens reais "doudas" . Como a autora. Divirtam-se.
 
Mantém-se também a compra através de mim se quiserem, eu compro à editora e levo para o lançamento ou melhor dizendo para o " tribe book jam party" dia 28 de Fevereiro no Hotel Real Palácio em Lisboa às 19.00. 
Quem quiser aparecer agradeço que me confirme por mail.

Em formato e.book (€5,99) em : http://www.artelogy.com/store/tracos-de-momentos-e-viagens-de-anabela-simoes-ferreira

Em papel : €18,00 e demora 1 semana para entrega nas vossas casas em : http://www.artelogy.com/store/anabela-simoes-ferreira-tracos-de-momentos-e-viagens

ou página do FB da editora:
https://www.facebook.com/artelogy?sk=app_519984624691308&app_data={%22id_prod%22%3A%229%22}

Ou encomenda numa qualquer livraria.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

DESPERTARES Pemba, os meus

6.30 da manhã:

Acordo com gritos violentos: ”minha senhora, minha senhora, sai de casa”
Dou um salto da cama e levanto-me penosamente com os gritos que não param. 
Como sempre, estou em modo Calvin quando decide fazer arrumações: não sei onde está a chave!
 e os gritos continuam…
“há fogo minha senhora, sai de casa” e eu à procura das chaves…
Grito também: “já ouvi! Não sei das chaves, não posso abrir a porta e se há fogo alguém desligue o quadro da electricidade! 
Estava a dar demasiada informação…
O grito colectivo mantém-se como se ninguém me tivesse ouvido.
Qual cartoon…
10 anos mais tarde…
eis que as chaves aparecerem não sei de onde e desgrenhada e ramelenta abro a porta e vejo um quadro que não sei se me escangalhava a rir se a chorar se panicar:
Por trás de uma nuvem de fumo e umas labaredas, um grupo de empregados da casa principal todos juntos a gritar e nos rostos lia-se o medo. 
Virei costas entrei em casa e fui a correr para o quadro eléctrico no lado oposto da casa. Desliguei-o e fui perceber o drama.
“Afenal”um canalizador tinha estado a substituir um cano e só substituiu metade. A outra metade, continuava podre, corroída pela idade. Já lá estava desde que Bartolomeu Dias dobrou o Cabo…
Colocou terra em cima, o cano rebentou e o fumo que saía era ar a ferver…e chamas à mistura perto de uma ficha eléctrica.
Não percebi se o perigo foi real ou se podíamos ter morrido todos. Aos gritos. Ou não.
Disse-lhes que estava eternamente agradecida, sobretudo porque gritaram, mas não desligaram o quadro…Eles queriam só salvar a “sua senhora”.
Como ainda me restava meia hora de sono, não o desperdicei.

04.30 da manhã…

De um salto estou sentada na cama sem perceber onde estou…enquanto ouvia um silvo: allahhhhhhhhhh
O que me fazia despertar?…
Cartoon seguinte:
Eu quase a descabelar-me… o allahhhhh continuava...
Afinal era o maulane da mesquita na 1ª reza da manhã. Em cada aldeia, em cada esquina há uma mesquita e o dia de rezas começa às 04,30…
Nunca mais vou dormir à aldeia, sem levar tufos para os ouvidos! 2 pares!

Na aldeia, onde vive a Vera “Blixen”, em cima da praia para onde vou frequentemente, as pessoas vivem em comunidades estreitas quer se queira quer não.
O vizinho da Vera construiu a casa dele, geminada com a da Vera, em material local.
Ela sabe quando ele está na casa de banho, no quarto ou na sala pelos barulhos que oferecem pistas.
O vizinho não trabalha e descobriu o amor pela música e pelas motorizadas.
Daí a comprar uma aparelhagem chinesa (naturalmente) em décima mão com más colunas foi um pequeno passo na sua evolução como pessoa.
O som ouve-se na aldeia vizinha, mas é na casa da Vera que a musica africana de qualidade…se vive com intensidade!
E assim despertamos muitas vezes…
tantas que já deu direito a queixa e a um pedido de desculpa formal. Depois, acalmou.
Mas só porque a aparelhagem morreu de repente. Foi a praga que lhe rogámos! Benditos produtos chinas de curta duração!
As motorizadas…bem, ele não tem guito para o gasóleo, apenas as põe a trabalhar às 05.00…para ouvir o som celestial do motor! Sobretudo agora que a aparelhagem pifouJ. Numa de vingança contra as molungas.
Para lá ir dormir preciso de 2 pares de tufos…

06 e picos…

Cum raio me caia em cima foi o que pensei quando saltei na cama!
Um choro intenso e sofrido, muito muito alto. Magoava os ouvidos e a alma. Mas que raio…
Era sexta-feira, dia de sacrifício do cabrito na religião muçulmana. Estava a acontecer ali mesmo no meu quintal.
E é sempre assim, às 6as haja feira ou não, há sacrifícios.
3 pares de tufos nos ouvidos são poucos!

“Minha senhora não lhe vi 2 dois dias, onde estavas minha senhora? Estava muito preocupado”. “Trouxe esta papaia para a minha senhora”
Eu tinha ido passar o fim de semana para a praia e estas foram as palavras do meu guarda (sim tenho um guarda, toda a gente tem) quando despertei.
Dorme na minha porta e um dia destes que saí à noite, quando voltei, consegui a proeza de abrir a porta de casa, saltar por cima dele e fechar a porta…sem o acordar. 
Pensei: deve estar a usar os meus tufos…
Ahh e a papaia? Agradeci e respondi: “quanto te devo?” “Nada! Apanhei num quintal para ti”.
“Num quintal? Então e os donos?”
“Não vi ninguém, não tem dono… e há muitas lá, podem dividir”

Soube-me ainda melhor o pequeno-almoço.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Mercado inclina, na Beira

Em tons laranja papaia e amarelo ananás, com os acastanhados das maçanicas, que cobrem as maçaniqueiras, o sol, deu-me o acordar do dia com um convite:
-hoje vamos fazer compras a África. Naquela profunda!
-Gostas de fazer compras?
-Hum, retorqui, nem por isso…a não ser frutas, aí perco-me.
Perdi ao longo dos anos o gosto que nunca foi verdadeiramente nascido em mim, por hipermercados. Prefiro mercearias onde converso com toda a gente e escolho o feijão,o milho, as mangas e as verduras, enquanto a vida se desenrola sem pressa.
-Gostas de inclinar?
-Inclinar?
De mente aberta esperei a resposta,não pensando em nada,já que me habituei em África, a andar despida de expectativas mas coberta por surpresas de cores quentes.
Esperar sempre sim, que o dia a dia me traga muitas novidades.E este dia trazia também.
-Vamos à boutique inclina! A maior boutique a céu aberto da Beira.
-O quê? Mas claro que sim! onde fica esse lugar?
-É já ali (como dizem os alentejanos). Prepara-te para andar um bom bocado!
Ou seja, exactamente o que eu gosto. Preparei a minha mochila e fui imediatamente advertida:
-hey rapariga, só podes levar chapéu e dinheiro no soutien. Nem telemóveis, nem carteiras. Ri-me, coloquei um lenço colorido na cabeça, as minhas calças tailandesas confortáveis, chinelas, uma malinha na cintura e parti para mais uma aventura africana… na África real.
E em menos de 10 minutos estava em Goto, nome mais conhecido do mercado. Tchungamoyo, em dialecto ndau, traduz-se por “aperta o coração”. Mercado paralelo, onde toda a gente comprava, antes de existir qualquer outro. Uma necessidade inerente à existência, em tempos de guerra. Quem lá conseguia vender, fazia “apertar o coração” a quem comprava, por pouco ter.
Tal como em Maputo, dumba-nengue, em ronga, significa “confia nas pernas”, porque alguém podia ter de fugir com as compras fresquinhas, perseguido pelas autoridades policiais.
Ali estava eu, metida no meio de centenas de bancas cobertas com plástico, num terreno enlameado, porque tinha chovido de noite, numa autêntica cidade, com mil ruelas, e fardos, fardos, fardos. Fardos de calamidades como são chamados.
Roupas usadas, novas, sapatos, mochilas, vestidos de noivas, capulanas, tachos, panelas, casas de câmbios, entre mil outras actividades económicas. Tudo no chão, em cima de plásticos com pilhas de roupa. 
Nem todos os sapatos têm par, e, pode acontecer levar um “sábado e um domingo”. Ou seja, um sapato de cada nação. Por isso o par fica mais barato.
Algumas mais sofisticadas têm as peças penduradas em ramos cortados das árvores a fazer de cabides. A criatividade não tem limites.
Há fardos de 5,10,20,25 meticais (tudo menos de 1 euro) e outros de preço variável…são os fardos que dá para negociar ainda mais. As jeans mais caras que comprei,custaram-me €1,25…Fiz várias compras aos meus “bradas” e no total gastei €5,00…só não consegui comprar sapatos por puro burguesismo…são lavados ali mesmo, para ficarem com aspecto reluzente(mas não conseguem).
Ah… também não comprei cabelos de mulheres mortas, porque achei que seria demais,ter uma brada a vir do outro mundo, puxar-me o pé à noite e desmanchar-me a trança, só para me chatear. Seria natural sentir-se ofendida…
Descobri uma banca de um brada, de artesanato, com coisas girissimas. Prometo que lá irei fazer as compras para levar aos meus bradas na lusolândia.
Toda a gente que viveu,foi de férias ou em negócios, já foi a estes mercados gigantes. Roque Santeiro em Luanda, Sucupira na Praia, Bandim em Bissau, ou os dumba-nengues em Maputo como o Xipamanine. Em qualquer Palop e não só. 
O mundo económico e real, africano, em África. Todos se tratam por bradas e com as peles mais claras o preço começa sempre por cima. Negociar é a palavra de ordem.
Discuti preços (obrigatório), ri-me, inclinei-me muitas vezes, descobri as coisas que acabei por ter vontade de comprar, perdi a paciência de ver tanta roupa, cansei-me, sentei-me numa banca a comer tangerinas dulcissimas e a conversar com os vendedores. 
Mas no fim, cansada de andar debaixo do sol que já não perdoava os fracos, estava feliz e com um sorriso de orelha a orelha, naquele hipermercado, onde até andam “tchopelas” (os táxis- que são riquexós motorizados) e por sorte não leva fardos de roupa e fardos de gente à frente.
Ouvi um dos vendedores a pedir em casamento uma miuda linda,dizendo-lhe que era pobre,mas tinha um tchopela para lhe oferecer… a miuda recusou. Já era comprometida com um noivo que lhe prometeu um jeep.
Já no regresso vi uma mochila que me agradou e fui tentar saber quanto, com sotaque . O vendedor tinha ido a qualquer sitio e recebi como resposta do vendedor do lado: 
-“ ei, vucê…se me deres refresco,levas a mochila e eu não conto a ninguém” J
Num país que decididamente olha para a perspectiva de nova guerra entre bradas com a maior suspeição, porque não a aceita, e, apenas quer que a vida continue, nem que seja no meio de fardos/calamidades, até que chegue um novo dia, onde possam ter uma boutique a sério, vim para casa a sorrir.

Contente, de faces rosadas, sem mochila mas com boas compras da boutique inclina J, com a cintura mais elegante de tanto inclinar.