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| O marcador do livro Traços de momentos e Viagens |
Pego em mim, no que sou e viajo. Dentro de mim apanhando o comboio da minha imaginação, ou por esse mundo fora, que me convida a não ser, um ser quieto. Ou inspirando-me em Fernando Pessoa, "A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras"
domingo, 9 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Este blog transformou-se em livro :)
Tribo,
oficialmente recebi a informação da editora Artelogy que o livro já está à
venda a partir deste momento. O sorriso não descola Podem espalhar à vontade.
Um livro que conta histórias e opiniões de lugares,países, pessoas e culturas em viagens recheadas de aventuras de humor, momentos, e personagens reais "doudas" . Como a autora. Divirtam-se.
Mantém-se também a compra através de mim se quiserem, eu compro à editora e levo para o lançamento ou melhor dizendo para o " tribe book jam party" dia 28 de Fevereiro no Hotel Real Palácio em Lisboa às 19.00.
Quem quiser aparecer agradeço que me confirme por mail.
Em formato e.book (€5,99) em : http://www.artelogy.com/store/tracos-de-momentos-e-viagens-de-anabela-simoes-ferreira
Em papel : €18,00 e demora 1 semana para entrega nas vossas casas em : http://www.artelogy.com/store/anabela-simoes-ferreira-tracos-de-momentos-e-viagens
ou página do FB da editora:
https://www.facebook.com/artelogy?sk=app_519984624691308&app_data={%22id_prod%22%3A%229%22}
Ou encomenda numa qualquer livraria.
Em formato e.book (€5,99) em : http://www.artelogy.com/store/tracos-de-momentos-e-viagens-de-anabela-simoes-ferreira
Em papel : €18,00 e demora 1 semana para entrega nas vossas casas em : http://www.artelogy.com/store/anabela-simoes-ferreira-tracos-de-momentos-e-viagens
ou página do FB da editora:
https://www.facebook.com/artelogy?sk=app_519984624691308&app_data={%22id_prod%22%3A%229%22}
Ou encomenda numa qualquer livraria.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
DESPERTARES Pemba, os meus
6.30 da
manhã:
Acordo
com gritos violentos: ”minha senhora, minha senhora, sai de casa”
Dou um
salto da cama e levanto-me penosamente com os gritos que não param.
Como
sempre, estou em modo Calvin quando decide fazer arrumações: não sei onde está
a chave!
e
os gritos continuam…
“há
fogo minha senhora, sai de casa” e eu à procura das chaves…
Grito
também: “já ouvi! Não sei das chaves, não posso abrir a porta e se há fogo
alguém desligue o quadro da electricidade!
Estava
a dar demasiada informação…
O grito
colectivo mantém-se como se ninguém me tivesse ouvido.
Qual
cartoon…
10 anos
mais tarde…
eis que
as chaves aparecerem não sei de onde e desgrenhada e ramelenta abro a porta e
vejo um quadro que não sei se me escangalhava a rir se a chorar se panicar:
Por
trás de uma nuvem de fumo e umas labaredas, um grupo de empregados da casa
principal todos juntos a gritar e nos rostos lia-se o medo.
Virei
costas entrei em casa e fui a correr para o quadro eléctrico no lado oposto da
casa. Desliguei-o e fui perceber o drama.
“Afenal”um
canalizador tinha estado a substituir um cano e só substituiu metade. A outra
metade, continuava podre, corroída pela idade. Já lá estava desde que Bartolomeu
Dias dobrou o Cabo…
Colocou
terra em cima, o cano rebentou e o fumo que saía era ar a ferver…e chamas à
mistura perto de uma ficha eléctrica.
Não
percebi se o perigo foi real ou se podíamos ter morrido todos. Aos gritos. Ou
não.
Disse-lhes
que estava eternamente agradecida, sobretudo porque gritaram, mas não
desligaram o quadro…Eles queriam só salvar a “sua senhora”.
Como
ainda me restava meia hora de sono, não o desperdicei.
04.30
da manhã…
De um
salto estou sentada na cama sem perceber onde estou…enquanto ouvia um silvo:
allahhhhhhhhhh
O que
me fazia despertar?…
Cartoon
seguinte:
Eu
quase a descabelar-me… o allahhhhh continuava...
Afinal
era o maulane da mesquita na 1ª reza da manhã. Em cada aldeia, em cada esquina
há uma mesquita e o dia de rezas começa às 04,30…
Nunca
mais vou dormir à aldeia, sem levar tufos para os ouvidos! 2 pares!
Na
aldeia, onde vive a Vera “Blixen”, em cima da praia para onde vou
frequentemente, as pessoas vivem em comunidades estreitas quer se queira quer
não.
O
vizinho da Vera construiu a casa dele, geminada com a da Vera, em material
local.
Ela
sabe quando ele está na casa de banho, no quarto ou na sala pelos barulhos que
oferecem pistas.
O
vizinho não trabalha e descobriu o amor pela música e pelas motorizadas.
Daí a
comprar uma aparelhagem chinesa (naturalmente) em décima mão com más colunas
foi um pequeno passo na sua evolução como pessoa.
O som
ouve-se na aldeia vizinha, mas é na casa da Vera que a musica africana de
qualidade…se vive com intensidade!
E assim
despertamos muitas vezes…
tantas
que já deu direito a queixa e a um pedido de desculpa formal. Depois, acalmou.
Mas só
porque a aparelhagem morreu de repente. Foi a praga que lhe rogámos! Benditos
produtos chinas de curta duração!
As
motorizadas…bem, ele não tem guito para o gasóleo, apenas as põe a trabalhar às
05.00…para ouvir o som celestial do motor! Sobretudo agora que a aparelhagem
pifouJ. Numa de vingança contra as molungas.
Para lá
ir dormir preciso de 2 pares de tufos…
06 e
picos…
Cum
raio me caia em cima foi o que pensei quando saltei na cama!
Um
choro intenso e sofrido, muito muito alto. Magoava os ouvidos e a alma. Mas que
raio…
Era
sexta-feira, dia de sacrifício do cabrito na religião muçulmana. Estava a
acontecer ali mesmo no meu quintal.
E é
sempre assim, às 6as haja feira ou não, há sacrifícios.
3 pares
de tufos nos ouvidos são poucos!
“Minha
senhora não lhe vi 2 dois dias, onde estavas minha senhora? Estava muito
preocupado”. “Trouxe esta papaia para a minha senhora”
Eu
tinha ido passar o fim de semana para a praia e estas foram as palavras do meu
guarda (sim tenho um guarda, toda a gente tem) quando despertei.
Dorme
na minha porta e um dia destes que saí à noite, quando voltei, consegui a
proeza de abrir a porta de casa, saltar por cima dele e fechar a porta…sem o
acordar.
Pensei:
deve estar a usar os meus tufos…
Ahh e a
papaia? Agradeci e respondi: “quanto te devo?” “Nada! Apanhei num quintal para
ti”.
“Num
quintal? Então e os donos?”
“Não vi
ninguém, não tem dono… e há muitas lá, podem dividir”
Soube-me
ainda melhor o pequeno-almoço.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Mercado inclina, na Beira
Em tons laranja papaia e amarelo ananás, com os acastanhados das
maçanicas, que cobrem as maçaniqueiras, o sol, deu-me o acordar do dia com um
convite:
-hoje vamos fazer compras a África. Naquela profunda!
-Gostas de fazer compras?
-Hum, retorqui, nem por isso…a não ser frutas, aí perco-me.
Perdi ao longo dos anos o gosto que nunca foi verdadeiramente nascido
em mim, por hipermercados. Prefiro mercearias onde converso com toda a gente e
escolho o feijão,o milho, as mangas e as verduras, enquanto a vida se desenrola
sem pressa.
-Gostas de inclinar?
-Inclinar?
De mente aberta esperei a resposta,não pensando em nada,já que me
habituei em África, a andar despida de expectativas mas coberta por surpresas de cores quentes.
Esperar sempre sim, que o dia a dia me traga muitas
novidades.E este dia trazia também.
-Vamos à boutique inclina! A maior boutique a céu aberto da Beira.
-O quê? Mas claro que sim! onde fica esse lugar?
-É já ali (como dizem os alentejanos). Prepara-te para andar um bom
bocado!
Ou seja, exactamente o que eu gosto. Preparei a minha mochila e
fui imediatamente advertida:
-hey rapariga, só podes levar chapéu e dinheiro no soutien. Nem
telemóveis, nem carteiras. Ri-me, coloquei um lenço colorido na cabeça, as
minhas calças tailandesas confortáveis, chinelas, uma malinha na cintura e
parti para mais uma aventura africana… na África real.
E em menos de 10 minutos estava em Goto, nome mais conhecido do
mercado. Tchungamoyo, em dialecto ndau, traduz-se por “aperta o coração”.
Mercado paralelo, onde toda a gente comprava, antes de existir qualquer outro.
Uma necessidade inerente à existência, em tempos de guerra. Quem lá conseguia
vender, fazia “apertar o coração” a quem comprava, por pouco ter.
Tal como em Maputo, dumba-nengue, em ronga, significa “confia nas
pernas”, porque alguém podia ter de fugir com as compras fresquinhas, perseguido
pelas autoridades policiais.
Ali estava eu, metida no
meio de centenas de bancas cobertas com plástico, num terreno enlameado, porque
tinha chovido de noite, numa autêntica cidade, com mil ruelas, e fardos, fardos,
fardos. Fardos de calamidades como são chamados.
Roupas usadas, novas, sapatos, mochilas, vestidos de noivas,
capulanas, tachos, panelas, casas de câmbios, entre mil outras actividades
económicas. Tudo no chão, em cima de plásticos com pilhas de roupa.
Nem todos
os sapatos têm par, e, pode acontecer levar um “sábado e um domingo”. Ou seja,
um sapato de cada nação. Por isso o par fica mais barato.
Algumas mais sofisticadas têm as peças penduradas em ramos cortados
das árvores a fazer de cabides. A criatividade não tem limites.
Há fardos de 5,10,20,25 meticais (tudo menos de 1 euro) e outros
de preço variável…são os fardos que dá para negociar ainda mais. As jeans mais
caras que comprei,custaram-me €1,25…Fiz várias compras aos meus “bradas” e no
total gastei €5,00…só não consegui comprar sapatos por puro burguesismo…são
lavados ali mesmo, para ficarem com aspecto reluzente(mas não conseguem).
Ah… também não comprei cabelos de mulheres mortas, porque achei
que seria demais,ter uma brada a vir do outro mundo, puxar-me o pé à noite e
desmanchar-me a trança, só para me chatear. Seria natural sentir-se ofendida…
Descobri uma banca de um brada, de artesanato, com coisas
girissimas. Prometo que lá irei fazer as compras para levar aos meus bradas na
lusolândia.
Toda a gente que viveu,foi de férias ou em negócios, já foi a
estes mercados gigantes. Roque Santeiro em Luanda, Sucupira na Praia, Bandim em
Bissau, ou os dumba-nengues em Maputo como o Xipamanine. Em qualquer Palop e
não só.
O mundo económico e real, africano, em África. Todos se tratam por
bradas e com as peles mais claras o preço começa sempre por cima. Negociar é a palavra de ordem.
Discuti preços (obrigatório), ri-me, inclinei-me muitas vezes, descobri
as coisas que acabei por ter vontade de comprar, perdi a paciência de ver tanta
roupa, cansei-me, sentei-me numa banca a comer tangerinas dulcissimas e a
conversar com os vendedores.
Mas no fim, cansada de andar debaixo do sol que já
não perdoava os fracos, estava feliz e com um sorriso de orelha a orelha, naquele hipermercado, onde até andam “tchopelas” (os táxis- que são riquexós
motorizados) e por sorte não leva fardos de roupa e fardos de gente à frente.
Ouvi um dos vendedores a pedir em casamento uma miuda
linda,dizendo-lhe que era pobre,mas tinha um tchopela para lhe oferecer… a
miuda recusou. Já era comprometida com um noivo que lhe prometeu um jeep.
Já no regresso vi uma mochila que me agradou e fui tentar saber
quanto, com sotaque . O vendedor tinha ido a qualquer sitio e recebi como
resposta do vendedor do lado:
-“ ei, vucê…se me deres refresco,levas a mochila e
eu não conto a ninguém” J
Num país que decididamente olha para a perspectiva de nova guerra
entre bradas com a maior suspeição, porque não a aceita, e, apenas quer que a
vida continue, nem que seja no meio de fardos/calamidades, até que chegue um
novo dia, onde possam ter uma boutique a sério, vim para casa a sorrir.
Contente, de faces rosadas, sem mochila mas com boas compras da
boutique inclina J, com a cintura mais
elegante de tanto inclinar.
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